O novo valor das competências no mercado de tecnologia




A automação de atividades cotidianas está redefinindo a composição das equipes, a estrutura de cargos e a maneira como o mercado avalia o potencial humano. Os reflexos dessa mudança já são visíveis na seleção de talentos e na construção de carreiras, exigindo das lideranças a necessidade de revisar seus padrões de contratação e desenvolvimento profissional.

Embora o conhecimento técnico continue indispensável, o domínio das ferramentas adquiriu um novo nível de exigência. Em um contexto em que sistemas inteligentes fornecem respostas instantâneas, o valor do profissional passou da mera execução de tarefas para a habilidade de avaliar, confirmar e aplicar os resultados de maneira estratégica e rigorosa. Portanto, a tecnologia e a gestão de pessoas devem atuar em sinergia contínua, assegurando que os aumentos de produtividade sejam acompanhados de um senso crítico e capacidade analítica.

Contratação demanda nova combinação de habilidades:

Os sinais dessa transformação já aparecem nos critérios adotados pelas empresas. O relatório Future of Jobs Report, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 69% dos empregadores consideram a capacidade analítica um atributo essencial. Embora o interesse por Inteligência Artificial, Big Data e cibersegurança cresça em ritmo acelerado, competências como conhecimento crítico, resiliência e aprendizagem contínua ganham o mesmo peso. O mercado busca uma combinação equilibrada entre especialização técnica e flexibilidade.

Os processos de seleção também acompanham essa evolução e passam a priorizar a aplicação prática do conhecimento. Segundo a Gartner, até 2027, 75% das contratações incluirão testes práticos de aplicação de IA. A capacidade de adaptação, a visão estratégica sobre o negócio, a formulação de boas perguntas e a aplicação do conhecimento em situações concretas se tornam decisivas na avaliação.

O novo escopo das carreiras digitais:

A reorganização do trabalho também altera a perspectiva de expansão das ocupações. O Fórum Econômico Mundial projeta alta demanda por especialistas em machine learning, desenvolvedores de software, engenheiros de dados e profissionais de segurança da informação até 2030.

Na América Latina, a contratação e busca por profissionais que dominam ferramentas de IA cresceu quase onze vezes, cerca do dobro do ritmo registrado nos Estados Unidos e na Europa, de acordo com a pesquisa da McKinsey. Contudo, essa maturidade digital não significa apenas construir algoritmos, mas saber integrar a tecnologia à estratégia corporativa. O estudo também mostra que 66% das habilidades exigidas combinam rotinas automatizáveis quanto tarefas que permanecem menos suscetíveis à automação, reforçando a tendência de colaboração entre pessoas e recursos digitais.

Na medida em que a automação absorve tarefas repetitivas, a progressão na carreira deixa de depender do tempo de permanência na empresa e passa a exigir maturidade profissional para assumir desafios de maior complexidade e impacto direto nos negócios.

O desafio da formação e o papel das lideranças:

A reorganização das equipes amplia a pressão sobre os modelos de qualificação. A Gartner estima que 60% das organizações adotarão estruturas enxutas de engenharia de software em escala até 2029, com equipes multidisciplinares supervisionando agentes autônomos e assumindo responsabilidades diretas sobre produto, arquitetura e experiência do usuário.

Por outro lado, os ganhos imediatos de produtividade trazem um desafio para os profissionais em início de carreira. Atividades operacionais como documentação, pesquisas preliminares e escrita de códigos básicos, sempre serviram como etapas essenciais de aprendizado. Com a absorção dessas tarefas pela IA, as empresas precisam criar espaços deliberados de formação técnica e prática.

Preparar as equipes para a era da inteligência artificial exige ir além de treinamentos funcionais sobre novas ferramentas, envolve promover uma mentalidade voltada para a análise crítica de falhas, revisão de arquitetura, governança de dados e visão de negócios. Para as empresas, a verdadeira vantagem competitiva não estará apenas em adotar novas tecnologias, mas na habilidade de utilizar a automação para ganhar escala sem abrir mão do critério humano e da responsabilidade pelas decisões.


Fonte: Marcos Roberto Pinotti - diretor de engajamento da Kron Digital.