Há um consenso no mercado de crédito brasileiro: o score tradicional é limitado, o futuro está na combinação de novas fontes e quem reunir mais dados vai decidir melhor. Cadastro positivo, Open Finance, registro eletrônico de recebíveis e modelos comportamentais alimentam essa corrida. Não discordo do valor dessas informações, mas de onde o esforço está concentrado.
A inadimplência do sistema financeiro nacional atingiu 4,9% em julho, o maior nível desde o início da série do Banco Central, em março de 2011. Entre as famílias, chegou a 5,8%. Seria incorreto atribuir esse cenário à insuficiência dos novos dados, já que juros elevados e endividamento acumulado também pesam. O número mostra, porém, que ampliar as fontes de informação no momento da aprovação não foi suficiente para evitar o recorde.
Crédito não é recompensa por bom comportamento, mas uma estimativa da probabilidade de pagamento, feita com informações incompletas. Uma empresa pode apresentar histórico impecável e, meses depois, perder seu principal cliente. O problema não é o score ter errado na aprovação, mas continuar tratando aquela avaliação como se nada tivesse mudado.
Imagine uma empresa aprovada em março, com faturamento crescente, fluxo de caixa saudável e nenhuma restrição. Em julho, ela perde um contrato importante. Em agosto, contrai novas dívidas para cobrir o caixa. Em setembro, concede aval a um fornecedor. Em janeiro, deixa de pagar. Nenhuma fonte consultada em março poderia antecipar acontecimentos que ainda não existiam. Mas a queda nos recebimentos, o novo endividamento e as garantias concedidas poderiam ter sido observados ao longo dos meses, mediante acesso autorizado às informações. O problema é que, em muitas operações, ninguém acompanha esses sinais.
Essa lacuna é especialmente relevante no crédito empresarial, rural e de longo prazo. Diferentemente do cartão e do crédito pessoal, que já utilizam acompanhamento comportamental frequente, nesses segmentos boa parte do esforço analítico permanece concentrada na aprovação. A operação só volta a receber atenção quando ocorre o atraso. E inadimplência é um indicador de confirmação: quando aparece, a deterioração financeira pode ter começado muito antes.
A regulação já reconhece a necessidade de antecipação. Desde janeiro de 2025, a Resolução CMN nº 4.966/2021 estabeleceu um modelo de provisionamento por perdas esperadas, com abordagem prospectiva. Entretanto, em parte das operações, ainda existe uma distância entre essa lógica e os processos de alerta, cobrança e renegociação, frequentemente acionados apenas após o atraso. Há também uma parcela importante do mercado fora desse alcance regulatório.
Fornecedores, indústrias, distribuidores, fundos e securitizadoras concedem crédito empresarial sem necessariamente dispor dos mesmos instrumentos de análise dos bancos. Um fornecedor que vende milhões a prazo, por exemplo, não tem acesso direto ao Sistema de Informações de Créditos (SCR) nas mesmas condições de uma instituição autorizada.
A infraestrutura disponível já oferece caminhos para melhorar esse acompanhamento. O Open Finance, por exemplo, permite observar movimentações financeiras mediante consentimento, o registro eletrônico de recebíveis amplia a verificabilidade das operações e o SCR reúne informações sobre endividamento e garantias. O desafio não é simplesmente adicionar novas fontes, mas integrar as informações acessíveis a cada credor e identificar quando os sinais começam a divergir.
Recebimentos em queda acompanhados de novas dívidas, redução da carteira de recebíveis ou garantias concedidas após a aprovação podem indicar mudanças relevantes no risco. Acompanhá-las exige critérios claros, acesso legítimo aos dados e processos capazes de transformar sinais em decisões. Reconheço que a ampliação das fontes na concessão trouxe um benefício importante: inclusão financeira. O cadastro positivo e o compartilhamento de dados permitiram avaliar pessoas e empresas antes pouco visíveis aos modelos tradicionais, mas ampliar o acesso ao crédito e preservar a qualidade da carteira são desafios diferentes.
Quando o financiamento bancário fica mais restrito, empresas podem recorrer ao prazo concedido por fornecedores, distribuidores e outros agentes. O risco não desaparece: muda de credor, muitas vezes para quem dispõe de menos ferramentas para acompanhá-lo. A corrida que realmente importa, portanto, não é apenas por mais dados na aprovação. É pela capacidade de utilizar as informações disponíveis durante toda a vida da operação, identificando mudanças antes que se transformem em inadimplência.
A infraestrutura disponível já oferece caminhos para melhorar esse acompanhamento. O Open Finance, por exemplo, permite observar movimentações financeiras mediante consentimento, o registro eletrônico de recebíveis amplia a verificabilidade das operações e o SCR reúne informações sobre endividamento e garantias. O desafio não é simplesmente adicionar novas fontes, mas integrar as informações acessíveis a cada credor e identificar quando os sinais começam a divergir.
Recebimentos em queda acompanhados de novas dívidas, redução da carteira de recebíveis ou garantias concedidas após a aprovação podem indicar mudanças relevantes no risco. Acompanhá-las exige critérios claros, acesso legítimo aos dados e processos capazes de transformar sinais em decisões. Reconheço que a ampliação das fontes na concessão trouxe um benefício importante: inclusão financeira. O cadastro positivo e o compartilhamento de dados permitiram avaliar pessoas e empresas antes pouco visíveis aos modelos tradicionais, mas ampliar o acesso ao crédito e preservar a qualidade da carteira são desafios diferentes.
Quando o financiamento bancário fica mais restrito, empresas podem recorrer ao prazo concedido por fornecedores, distribuidores e outros agentes. O risco não desaparece: muda de credor, muitas vezes para quem dispõe de menos ferramentas para acompanhá-lo. A corrida que realmente importa, portanto, não é apenas por mais dados na aprovação. É pela capacidade de utilizar as informações disponíveis durante toda a vida da operação, identificando mudanças antes que se transformem em inadimplência.
Sendo assim, a pergunta que o mercado deveria fazer não é somente quais dados reunir antes de dizer sim, mas o que fazer com eles nos meses seguintes - e como ampliar essa capacidade para quem financia fora do sistema bancário.

