Presença de montanhas é evidenciada em estudo que gerou a nova classificação do relevo do país
Por décadas, prevaleceu a ideia de que o solo brasileiro era predominantemente desgastado, plano e sem formações topográficas de relevância. Existia uma razão para isso: os especialistas de outras épocas entendiam que os montes estariam restritos às cadeias de dobramentos modernos — como os Andes, na América do Sul; os Himalaias, na Ásia; os Alpes, na Europa; e as Montanhas Rochosas, na América do Norte —, definidos por colisões tectônicas recentes nas margens de blocos ativos. No interior da Placa Sul-Americana, as elevações do País não se encaixavam facilmente nesse conceito.
Esse paradigma, no entanto, vem sendo superado, e diversos estudos conduzidos por geógrafos, geólogos e geomorfólogos redefiniram o mapeamento do relevo do Oiapoque ao Chuí.
A própria paisagem reforça essa antiga percepção. A engenheira agrônoma e geógrafa Eltiza Rondino Vasques, diretora técnica adjunta do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), lembra que a topografia nacional sofreu intenso desgaste pela erosão ao longo de centenas de milhões de anos, adquirindo formas “mais arredondadas e menos imponentes”.
Além disso, os antigos levantamentos ajudaram a desenhar a imagem de um solo pouco acidentado. É o que pontua Rosângela Botelho, doutora em Geografia Física pela Universidade de São Paulo (USP) e chefe do Setor do Meio Físico da Coordenação de Meio Ambiente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Na verdade, nós sabemos que não é assim: nós temos um relevo extremamente diverso”, acrescenta.
Essa visão é compartilhada por Jurandyr Ross, professor titular e sênior do Departamento de Geografia da USP: muitas dessas formações já apareciam nas cartografias, mas sob outras denominações. “O país tem montanhas”, afirma. “Elas estão nos mapas, mas estão sendo chamadas de serra”.
A evolução do registro ajudou a mudar esse quadro. Ross destaca o papel do RadamBrasil e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a partir da década de 1970, com o uso de imagens de radar e satélite. Hoje, ferramentas de geoprocessamento permitem observar o território com maior precisão.
Esse avanço culminou no Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR), coordenado pelo IBGE com outras instituições e pesquisadores. Pelos critérios da iniciativa, não basta uma formação estar muito acima do nível do mar para ser montanha. É preciso um desnível mínimo de 300 metros em relação às áreas vizinhas, encostas íngremes e inserção em um conjunto de elevações. O desenho dos topos é outro parâmetro considerado.
A plataforma reorganiza a ordem das informações. “Nós trazemos os formatos de relevo para o primeiro nível hierárquico e mantemos os dados relacionados à geologia no segundo nível”, explica Rosângela. Ou seja: é preciso considerar também a morfologia, o contexto geológico e a relação da formação com o conjunto. “O conhecimento técnico é essencial para que a interpretação seja baseada em evidências científicas e não apenas na aparência da paisagem”, reforça Eltiza.
Os critérios produzem resultados pouco intuitivos. O Monte Roraima, apesar dos 2.810 metros de altitude, continua classificado como planalto por sua superfície achatada. Já o Maciço do Urucum, em Mato Grosso do Sul, foi reconhecido como montanha. “Verificamos não só por imagens, mas também no local por meio de investigação de campo”, conta Rosângela.
Riscos e planejamento:
Mapear o relevo com mais precisão melhora a maneira como o território é estudado e ocupado. A catalogação pode contribuir, por exemplo, para reconhecer zonas suscetíveis a deslizamentos, conservar a biodiversidade e orientar pesquisas geotécnicas e ambientais.
O levantamento, porém, costuma seguir uma macroescala, o que pode desconsiderar características próprias de uma área reduzida. A cartografia nacional ou municipal ajuda a identificar tendências e fragilidades, mas não substitui o diagnóstico minucioso demandado por uma obra. “Dependendo do objetivo, você vai ter uma exigência maior ou menor do detalhamento do trabalho”, explica Ross.
A nova nomenclatura não implica revisão imediata de diretrizes. Ainda não há, por exemplo, registro de mudanças em padrões da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) motivadas especificamente pelo SBCR, embora a terminologia possa ser incorporada gradualmente a documentos e instrumentos de planejamento.
Nesse processo, o Sistema Confea/Crea pode colaborar com capacitação, divulgação técnica e estímulo ao uso da terminologia atualizada. “A padronização ajuda o conhecimento a circular com mais clareza entre profissionais e sociedade”, avalia Rosângela.
O SBCR, afinal, não cria montanhas onde antes elas não existiam. Em vez disso, ele refina as lentes com que o território é observado e amplia as condições para pensar sua ocupação e orientar decisões técnicas.
Fonte: Crea-SP .
