A economia em K veio para ficar?




Em 2025, o rendimento domiciliar per capita do brasileiro chegou a R$ 2.264, o maior valor da série histórica do IBGE. No mesmo ano, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, quase o dobro dos 4,7% registrados entre os 40% mais pobres, e o índice de Gini voltou a subir. A renda média melhora, a pobreza cai, e ainda assim boa parte da população não reconhece nos indicadores a própria vida. Esse descompasso pede uma explicação que vá além da conjuntura.

Durante a pandemia, os economistas popularizaram a expressão “recuperação em K” para descrever uma retomada em que parte da sociedade avançava rapidamente, impulsionada pela digitalização e pela valorização de ativos, enquanto outra parte perdia renda e emprego. A imagem parecia adequada a uma crise excepcional. Passados alguns anos, cabe perguntar se a letra descrevia apenas aquele momento ou se revelava, com mais nitidez, um processo que já estava em curso.

A literatura econômica oferece boas razões para levar a segunda hipótese a sério. David Autor e outros pesquisadores documentaram o esvaziamento das ocupações intermediárias, que por décadas sustentaram a classe média, ao lado do crescimento de atividades muito qualificadas e de serviços de baixa remuneração. Os estudos sobre as chamadas superstar firms descrevem empresas que combinam tecnologia, dados e escala, ganham participação de mercado e produzem muito com relativamente pouco trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, a fatia da renda global destinada ao trabalho caiu 1,6 ponto percentual desde 2004. Os salários podem subir, e muitas vezes sobem, enquanto encolhe a parcela do valor produzido que remunera quem trabalha.

A inteligência artificial amplia esse movimento e muda o seu alcance. O Fundo Monetário Internacional estima que cerca de 60% dos empregos nas economias avançadas e 40% nos países emergentes estão expostos à IA. Exposição não equivale a substituição, e o efeito mais relevante aparece nas trajetórias. Imagine dois profissionais com o mesmo salário. Um incorpora as novas ferramentas, multiplica sua produtividade e alcança mercados mais sofisticados. O outro continua empregado, recebe reajustes, mas vê o valor relativo do seu trabalho diminuir a cada nova rodada de automação. Hoje os dois parecem iguais nas estatísticas. Em cinco anos, provavelmente não estarão. Nessa leitura, a economia em K dispensa o empobrecimento de um grupo; basta que as possibilidades de crescer, acumular patrimônio e mudar de vida se afastem de forma persistente.

O Brasil oferece uma contribuição importante a esse debate, porque mostrou que essas forças podem ser contidas. Entre 2019 e 2025, a renda dos 40% mais pobres cresceu 37,6%, contra 11,9% dos 10% mais ricos, resultado da valorização do salário mínimo, das transferências de renda e de um mercado de trabalho aquecido. Mesmo com a alta recente, o Gini de 2025, de 0,511, permanece abaixo do registrado em 2019, de 0,543. Instituições e políticas públicas alteram o desenho da letra.

O ano de 2025, porém, trouxe um sinal que merece cuidado. Ao explicar o ganho maior no topo, o próprio IBGE apontou a remuneração de trabalhadores mais qualificados, os juros elevados, que ampliaram o retorno das aplicações financeiras, e a alta dos aluguéis. São exatamente os canais que a literatura internacional associa à divergência estrutural. As diferenças regionais completam o quadro: segundo o FGV IBRE, a pobreza atingia 42,4% da população do Nordeste e 12,8% da do Sul.

Há ainda uma dificuldade de medição. Na PNAD Contínua, aluguéis e arrendamentos representam apenas 2,1% do rendimento domiciliar per capita. Pesquisas domiciliares captam bem o salário e mal a renda do capital no topo da distribuição, justamente a parcela que mais cresce quando os juros sobem e a produtividade se concentra. Se o K brasileiro avançar por esse caminho, nossos principais indicadores tenderão a enxergá-lo tarde. Acompanhar PIB, inflação, desemprego e renda média continuará indispensável, mas convém somar a eles medidas de mobilidade entre gerações, evolução salarial por ocupação, distribuição dos ganhos de produtividade e formação de patrimônio, cruzando as pesquisas domiciliares com dados tributários.

A discussão também diz respeito às empresas e vai além da responsabilidade social. Uma economia que concentra renda e oportunidades de forma progressiva estreita o mercado consumidor, dificulta a formação de talentos e acumula tensões que acabam chegando aos negócios. Conselhos de administração costumam perguntar quanto valor a tecnologia pode criar. Precisarão perguntar, com a mesma disciplina, como esse valor será distribuído entre acionistas, trabalhadores, clientes e sociedade.

Ainda não há evidências suficientes para afirmar que a economia em K seja uma condição permanente. Seria igualmente imprudente tratá-la como lembrança da pandemia. O governo que assume em 2027 herdará indicadores agregados favoráveis e uma pergunta que eles não respondem: quem consegue, de fato, transformar o crescimento em oportunidade concreta de prosperidade.

Durante a pandemia, usamos a letra K para explicar por que alguns se recuperavam e outros ficavam para trás. Se as forças que a desenharam continuarem operando, ela poderá deixar de descrever uma recuperação e passar a descrever a própria economia. O Brasil já demonstrou que o traçado dessa letra depende, em boa medida, das escolhas que fazemos.


Fonte: Antonio Carlos Matos da Silva - mestre em Farmácia, mestrando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-EAESP e especialista em Acesso à Inovação em Saúde. Possui MBA em HealthTech pela FIAP e mais de duas décadas de experiência de alta gestão no setor de setor de saúde. Conselheiro independente associado ao IBGC.