O Banco Central reduziu novamente a taxa Selic, que passou de 14% para 13,75% ao ano na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada no dia 16 de setembro. Apesar da flexibilização da política monetária brasileira, o custo do crédito continua sendo um desafio para as empresas brasileiras, que bateram recorde de inadimplência.Nem sempre lucrar mais e crescer significa um CNPJ saudável financeiramente.
O corte de juros de setembro foi o quinto consecutivo, em um ciclo que já reduziu a taxa básica em 1,25 ponto percentual desde março. No entanto, os indicadores de inadimplência das empresas ainda preocupam. Segundo a Serasa Experian, 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes em julho, maior número da série histórica, com R$ 238,6 bilhões em dívidas. O dado mais recente representa uma alta em relação aos 9,1 milhões de CNPJs negativados registrados em junho.
Os números ajudam a evidenciar um paradoxo que gestores brasileiros vêm enfrentando: uma empresa pode aumentar as vendas, apresentar lucro e, ainda assim, enfrentar dificuldade para pagar fornecedores, funcionários, impostos e outros compromissos. Isso acontece porque lucro é diferente de dinheiro efetivamente disponível no caixa.
A situação pode parecer contraditória, mas o próprio crescimento é capaz de aumentar a pressão financeira. O crescimento pode esconder um paradoxo. Quanto mais a empresa vende, maior pode ser sua necessidade de capital de giro. Crescer sem planejamento financeiro aumenta a pressão sobre o caixa.
Mais vendas normalmente exigem estoque maior, contratação de pessoas, investimentos na operação e recursos suficientes para manter todas essas despesas até que o dinheiro das vendas seja efetivamente recebido. Uma empresa que concede prazos de 30, 60 ou 90 dias aos clientes continua pagando salários, fornecedores, tributos, aluguel e outras despesas durante esse intervalo. É nesse período que o capital de giro se torna fundamental para sustentar a operação.
Por isso, faturamento elevado e lucratividade não significam necessariamente que a empresa está financeiramente saudável. Também entram na conta descontos excessivos, inadimplência dos clientes e problemas na cadeia logística, que podem fazer com que as vendas avancem enquanto a margem de lucro e a geração de caixa diminuem. Lucro garante desempenho no papel. Caixa garante a sobrevivência da empresa.
O mesmo cuidado vale para o saldo bancário. Ter dinheiro disponível na conta em determinado momento não revela compromissos que vencerão nos dias seguintes, recebimentos previstos, nível de endividamento ou a necessidade de capital de giro. O saldo bancário mostra uma fotografia do momento. A gestão financeira precisa assistir ao filme inteiro. Decidir apenas pelo dinheiro disponível na conta significa enxergar apenas uma pequena parte da realidade financeira da empresa.
Juros menores não eliminam pressão sobre o caixa
Para as empresas, a organização financeira continua sendo importante mesmo em um cenário de juros em trajetória de redução. Negócios que recorrem sistematicamente a empréstimos para cobrir despesas operacionais podem estar utilizando o crédito para compensar desequilíbrios anteriores, como capital de giro insuficiente, fluxo de caixa desorganizado ou crescimento sem planejamento. O crédito deve acelerar o crescimento da empresa, nunca sustentar sua sobrevivência.
Os dados da Serasa Experian reforçam essa preocupação. Ao analisar a inadimplência de junho, a empresa apontou que parte dos negócios continua recorrendo ao crédito para sustentar a operação e administrar o capital de giro. Entre as empresas inadimplentes, as micro e pequenas representam a maioria expressiva.
Problemas financeiros costumam dar sinais antes da crise
Dificuldades financeiras também raramente surgem de um dia para o outro. Redução gradual da rentabilidade, aumento do endividamento, pressão crescente sobre o fluxo de caixa, perda de liquidez e expansão desorganizada podem aparecer antes de a falta de dinheiro se tornar evidente.
Entre os sinais que merecem atenção estão o faturamento crescendo sem melhora proporcional do lucro, margens cada vez menores, necessidade frequente de crédito para despesas rotineiras, aumento dos valores a receber sem avanço equivalente do caixa e dificuldade para cumprir compromissos mesmo em períodos de vendas elevadas.
O acompanhamento de fluxo de caixa projetado, liquidez, rentabilidade, endividamento, capital de giro e prazos médios de pagamento e recebimento permite identificar esses desequilíbrios antes que se transformem em uma situação mais difícil de reverter. Empresas raramente entram em dificuldade por falta de informações. Na maioria das vezes, os sinais estavam presentes, mas não foram acompanhados ou interpretados no momento certo.
A principal mudança de perspectiva é deixar de considerar faturamento e lucro isoladamente como sinônimos de sucesso. Mesmo com uma redução gradual dos juros, a capacidade de gerar caixa continua sendo fundamental para que o crescimento seja sustentável. O empresário não deve perguntar apenas se sua empresa dá lucro. A pergunta mais importante é se ela gera caixa suficiente para sustentar seu crescimento e enfrentar os desafios do mercado.
