Preparar as cidades para eventos climáticos exige pensar na prevenção




Até o final do ano, o Brasil estará sob influência do El Niño, um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e que pode alterar os padrões de temperatura e chuva no país. No Paraná, a previsão do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) indica chuvas acima da média até dezembro e a ocorrência de tempo severo, com tempestades, o que reforça a necessidade de pensar como a estrutura urbana pode responder a eventos climáticos distintos e desafiadores.

Diante deste momento, a arquitetura, o urbanismo e a engenharia civil assumem um papel importante no planejamento de cidades mais preparadas. “Não basta mais projetar cidades que funcionem bem em condições consideradas normais; precisamos projetar para que sejam capazes de responder e se adaptar a eventos extremos, como chuvas intensas, períodos prolongados de calor e alterações nos regimes climáticos”, afirma Cíntia Negrão Nogueira, professora, mestra e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo do UniBrasil Centro Universitário.

A mudança na forma de projetar os espaços envolve diferentes etapas do planejamento, desde o desenho das áreas públicas até a implantação de novos empreendimentos. Segundo Cíntia, áreas permeáveis, arborização, sombreamento e sistemas que favoreçam a drenagem das águas devem ser considerados nos espaços públicos. Nos empreendimentos e edifícios, o planejamento também precisa levar em conta a posição do imóvel em relação ao sol, a circulação de ar, a eficiência energética e a forma como a construção se integra ao sistema de drenagem urbana.

Infraestrutura urbana também precisa de adaptação:

No setor da construção civil e da infraestrutura urbana, a adaptação às novas condições climáticas envolve desafios que vão desde a elaboração de obras mais adequadas ao cenário atual até a criação de soluções capazes de reduzir os impactos de eventos extremos. Para Renan Dinis Pergher, professor e coordenador do curso de Engenharia Civil do UniBrasil, são três os principais desafios: produzir edificações coerentes com as condições atuais e com as perspectivas para o futuro; desenvolver soluções técnicas capazes de mitigar os impactos em maior escala e a um menor custo; e fazer isso sem agravar as transformações ambientais e a injustiça climática.

A forma como uma cidade lida com a água da chuva também pode fazer diferença. O conceito de cidade-esponja parte justamente dessa ideia: reter e absorver parte da água no próprio território, diminuindo a pressão sobre galerias e rios. Curitiba (PR) já adota soluções inspiradas nessa lógica há décadas. Desde os anos 1970, parques como Barigui e São Lourenço cumprem uma função que vai além do lazer: ajudam também na contenção das águas.

De acordo com o professor, aproximar as cidades do conceito de cidade-esponja passa também pela recuperação dos próprios cursos d’água. “Necessitamos recompor o traçado dos rios para sua estrutura original, rica em meandros, áreas alagáveis e com velocidade de fluxo lenta”. Para ele, os materiais utilizados na pavimentação também têm papel importante. “Um dos tópicos mais interessantes levantados hoje é a ideia de despavimentação, ou seja, a substituição de asfaltos, concretos e outros tratamentos de rua impermeáveis por blocos, calçamentos ou placas cimentícias semipermeáveis, junto à inserção de jardins de enchente, capazes de acumular água e percolar no solo até os lençóis freáticos”, explica.

Planejamento urbano faz parte da prevenção:

Preparar as cidades para eventos climáticos não significa criar respostas apenas para quando eles acontecem, é necessário pensar na prevenção. Ela começa nas decisões sobre ocupação do território, infraestrutura e preservação de áreas verdes, que ajudam a reduzir os impactos das chuvas e das altas temperaturas, por exemplo. Mas o planejamento também precisa considerar as desigualdades existentes em cada município, já que áreas com menor infraestrutura e populações em situação de maior vulnerabilidade tendem a sofrer mais com os impactos dos eventos climáticos.

“Precisamos avançar para um planejamento mais preventivo e integrado, no qual habitação, mobilidade, drenagem, preservação ambiental e espaço público sejam pensados conjuntamente”, afirma Cíntia. Para a professora, rios, áreas verdes, solos permeáveis e fundos de vale não devem ser vistos como elementos separados da cidade, mas como parte de seu funcionamento.

Além dos impactos para a população, a falta de prevenção também pode gerar consequências para os próprios municípios. Segundo Renan, parte dos recursos públicos que poderiam ser destinados à melhoria da qualidade de vida acaba sendo direcionada para a recuperação de áreas afetadas por eventos ambientais. Nesse sentido, planejar e adaptar as cidades também significa reduzir a necessidade de respostas emergenciais e permitir que os investimentos públicos sejam utilizados de forma mais estratégica.

Formação alinhada a uma nova realidade climática:

Para que essas mudanças sigam acontecendo na prática, é necessário formar profissionais capazes de pensar cidades mais resilientes diante dessa nova realidade climática. Arquitetos, urbanistas e engenheiros precisam estar preparados para considerar os impactos ambientais e sociais de suas escolhas desde o início de cada projeto e incorporar estratégias de adaptação às características de cada território.

Nos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil do UniBrasil, a sustentabilidade é trabalhada de forma transversal ao longo da graduação. Desde os primeiros períodos, os estudantes são incentivados a compreender a relação entre projeto, cidade, ambiente e sociedade. 

Na formação, o tema é abordado em diferentes frentes, como meio ambiente, materiais de construção, processos construtivos, tecnologia e mobilidade urbana. A proposta é aproximar a formação dos desafios encontrados nas cidades e preparar profissionais para atuar em um contexto marcado por transformações climáticas, sociais e econômicas. 


Fonte: UniBrasil Centro Universitário