O desafio real da gestão de frotas no setor florestal




O crescimento da silvicultura brasileira traz uma discussão que costuma passar despercebida quando se fala em inovação no campo: como administrar máquinas que trabalham em locais onde, muitas vezes, sequer existe sinal de celular?! Enquanto a digitalização avança em praticamente todos os setores da economia, boa parte das operações florestais continua enfrentando uma realidade em que a distância dos centros urbanos, o difícil acesso e a falta de conectividade fazem parte da rotina.

Os números mostram a força desse mercado. Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o Brasil possui cerca de 10,2 milhões de hectares de florestas plantadas, sendo aproximadamente 7,8 milhões de hectares de eucalipto e 2 milhões de pinus. O setor responde por cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto nacional, representa aproximadamente 5% do PIB industrial, gera 2,6 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos e exportou mais de US$15 bilhões em 2023. O cenário também é de expansão, impulsionado por investimentos em celulose, biomateriais, madeira engenheirada e bioenergia.

Esse crescimento vem acompanhado de uma mecanização cada vez maior das operações. Equipamentos como harvesters, forwarders e skidders se tornaram indispensáveis para a colheita moderna e representam investimentos de milhões de reais. O problema é que essas máquinas trabalham longe das oficinas, das equipes de manutenção e, muitas vezes, de qualquer tipo de infraestrutura de comunicação. Quando ocorre uma falha, a solução dificilmente é imediata.

Na atividade florestal, o impacto de uma parada inesperada costuma ser maior do que parece. Diferentemente de outros segmentos, a colheita não é organizada apenas de acordo com metas de produção. Existe um ciclo biológico que precisa ser respeitado, além das condições climáticas e do planejamento de abastecimento das indústrias. Isso significa que perder horas ou dias por causa de uma quebra pode afetar toda a programação da operação.

É justamente por isso que a manutenção deixou de ser uma atividade exclusivamente corretiva. Cada vez mais empresas vêm utilizando os dados produzidos pelos próprios equipamentos para acompanhar seu desempenho e identificar sinais de desgaste antes que eles se transformem em falhas capazes de interromper o trabalho.

A própria Embrapa Florestas aponta que a disponibilidade das máquinas está entre os principais fatores para garantir eficiência na colheita mecanizada, juntamente com a segurança dos operadores e a produtividade da operação. Quanto maior a sofisticação tecnológica dos equipamentos, maior também a necessidade de monitorar seu funcionamento de forma contínua.

O desafio é que, em muitas áreas de floresta, a conectividade simplesmente não existe. Isso exige soluções capazes de armazenar informações durante a operação e transmiti-las quando houver comunicação disponível, sem que os dados sejam perdidos. O objetivo é garantir que informações importantes continuem acessíveis para apoiar decisões de manutenção e gestão.

Os equipamentos atuais geram um volume enorme de informações sobre funcionamento do motor, consumo de combustível, pressão hidráulica, temperatura, horas trabalhadas e códigos de falha. Quando esses dados passam a ser analisados de forma estruturada, tornam-se uma ferramenta valiosa para antecipar problemas, programar intervenções e reduzir o tempo em que uma máquina permanece parada.

Existe ainda outro aspecto que merece atenção: a segurança. Os operadores costumam trabalhar isolados, espalhados por áreas extensas, muitas vezes distantes uns dos outros. O monitoramento dos equipamentos ajuda a identificar rapidamente situações atípicas que possam exigir apoio em campo.

O histórico operacional das máquinas também oferece informações importantes para decisões de longo prazo. Ao analisar padrões de uso e recorrência de falhas, é possível planejar melhor a substituição de componentes, organizar a manutenção e até avaliar o momento mais adequado para renovar parte da frota.

Essa transformação acompanha uma tendência observada em diferentes segmentos da indústria. De acordo com a Fortune Business Insights, o mercado global de manutenção preditiva deve crescer de US$10,6 bilhões, em 2024, para mais de US$47 bilhões até 2032, impulsionado pelo avanço da inteligência artificial, dos sensores inteligentes e da análise de dados.

No setor florestal, porém, o desafio é bastante particular. Não basta produzir informações, é preciso fazer com que elas continuem úteis mesmo quando a operação acontece em locais sem cobertura de telefonia e com infraestrutura limitada. À medida que o setor cresce e incorpora novas tecnologias, a gestão baseada em dados passa a ser uma condição para manter máquinas disponíveis, operadores mais seguros e operações funcionando com maior previsibilidade, independentemente da distância dos grandes centros.


Fonte: Alan Ribeiro