Liderança empresarial é uma atividade cada vez mais complexa




Existe um personagem quase invisível no debate público brasileiro. Ele acorda antes do amanhecer, responde mensagens de madrugada, administra fluxo de caixa, negocia com bancos, paga fornecedores, sustenta a folha de pagamento e, no fim do mês, torce para que ainda sobrem recursos para investir. Se a empresa cresce, dizem que ele lucrou demais. Se fecha as portas, descobrem tarde demais que junto com ela desapareceram empregos, renda e oportunidades.

Nesse contexto, falhar deixa de ser uma consequência exclusivamente empresarial. Quando uma empresa perde competitividade ou encerra suas atividades, os impactos se espalham por toda a sua cadeia de valor: empregos são eliminados, fornecedores perdem receitas, investimentos são interrompidos e famílias têm sua renda comprometida. É essa responsabilidade sistêmica que torna a liderança empresarial uma atividade cada vez mais complexa em um ambiente de negócios adverso.

Os números ajudam a explicar esse cenário. Empresas brasileiras podem gastar cerca de 1.500 horas por ano apenas para cumprir obrigações tributárias, segundo o Banco Mundial. Acrescente juros elevados, insegurança jurídica, burocracia e alta judicialização, e o resultado é um ambiente que consome tempo, recursos e energia das lideranças. O maior risco, porém, não é apenas econômico, mas humano.

Pouco se fala sobre a saúde emocional de quem lidera organizações. Enquanto colaboradores contam, cada vez mais, com programas de bem-estar e apoio psicológico, o CEO, o fundador e o pequeno empresário costumam enfrentar em silêncio as decisões mais difíceis. São eles que precisam comunicar demissões, renegociar dívidas, buscar crédito, lidar com crises e, ainda assim, transmitir serenidade para equipes que esperam respostas em meio à incerteza.

É nesse ponto que o debate deixa de ser sobre impostos e passa a ser sobre liderança. Empresas não quebram apenas por falta de caixa. A pressão prolongada também pode comprometer a capacidade de suas lideranças de tomar decisões estratégicas, levando a postergar investimentos, reduzir a disposição para inovar e transmitir insegurança para toda a organização. O impacto deixa de ser individual e pode comprometer produtividade, cultura, engajamento e crescimento.

Segundo o Sebrae, cerca de 99% das empresas brasileiras são micro e pequenas empresas. Quando o ambiente de negócios desestimula quem empreende, o impacto vai muito além do empresário: reduz investimentos, compromete a geração de empregos e limita o crescimento da economia. Criar um ambiente mais simples, previsível e competitivo não é uma concessão ao setor privado. É uma estratégia de desenvolvimento econômico.

O Brasil não precisa de empresários mais resilientes do que já são, mas de um ambiente de negócios que transforme resiliência em competitividade. Porque países que obrigam seus líderes a gastar energia apenas para superar obstáculos inevitavelmente investem menos, inovam menos e crescem menos. A verdadeira vantagem competitiva de uma nação não está na resiliência de seus empresários diante do sistema, mas na capacidade de suas instituições criarem condições para que as empresas façam aquilo que sabem fazer de melhor: investir, inovar, gerar empregos e impulsionar o desenvolvimento.


Fonte: David Braga – CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search, empresa de busca e seleção de executivos, presente em 30 países e 50 escritórios pela Agilium Group. Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-MG);