O Banco Central aprovou em 2025 a evolução do Mecanismo Especial de Devolução (MED) do pix, e a nova versão passou a ser obrigatória para as instituições participantes a partir de fevereiro deste ano. O mecanismo foi atualizado para permitir o rastreamento do caminho do dinheiro em casos de golpe e possibilidade de devolução após contestação. A medida ocorre em um contexto de crescente sofisticação das fraudes financeiras.
Os golpes online têm assombrado a vida de muitos brasileiros. E a popularização da inteligência artificial generativa transformou a dinâmica das fraudes financeiras no Brasil, tornando os golpes mais rápidos de serem produzidos e significativamente mais sofisticados.
O que antes demandava conhecimento técnico avançado agora pode ser elaborado em poucas horas, com mensagens bem escritas, contextualizadas e personalizadas a partir de informações como nome, cidade e histórico da vítima.
Essa evolução elevou o nível da engenharia social, tornando as tentativas de fraude cada vez mais convincentes e difíceis de identificar. A inteligência artificial não tornou as pessoas mais vulneráveis; ela tornou os golpes muito mais precisos. A engenharia social sempre explorou mecanismos como confiança, urgência, medo e autoridade. O que mudou foi a capacidade de personalizar essas estratégias em escala, fazendo com que cada abordagem pareça legítima e direcionada especificamente para aquela vítima.
Esse cenário evidencia que o desafio vai além da tecnologia utilizada pelos criminosos e expõe uma fragilidade no próprio desenho das soluções de pagamento. Existe uma crença de que combater fraude depende apenas de autenticação, biometria ou criptografia. Mas a maioria dos golpes via Pix acontece porque alguém foi convencido a autorizar a transação. Isso significa que o principal alvo não é o sistema, e sim o comportamento humano. Enquanto o design das plataformas continuar focado apenas em proteger a infraestrutura, e não a tomada de decisão do usuário, os golpistas continuarão explorando essa lacuna.
Embora trate de um recorte específico, um estudo da NordVPN, 34% dos internautas brasileiros tiveram contato com golpes ligados ao futebol entre 2024 e 2025. Marshallowitz afirma que a análise do comportamento oferece ferramentas capazes de complementar as estratégias tradicionais de prevenção às fraudes.
Os criminosos sabem que decisões tomadas sob pressão têm maior probabilidade de erro. Eles criam senso de urgência justamente para impedir que a pessoa reflita. Acredito que as empresas de pagamento poderiam utilizar princípios comportamentais para identificar contextos de risco e inserir barreiras inteligentes, como alertas personalizados, atrasos estratégicos ou confirmações adicionais em transações que fogem completamente do padrão daquele usuário. Hoje, em muitos casos, a tecnologia protege o sistema, mas não protege a decisão da pessoa.
Fonte: Sofia Marshallowitz - cientista de dados e pesquisadora.
