O maior impacto da Reforma Tributária pode estar no caixa das empresas




Há alguns dias, recebi uma ligação de um CFO que havia acabado de concluir uma simulação dos impactos da Reforma Tributária em sua empresa. A expectativa era confirmar aquilo que boa parte do mercado tem discutido nos últimos meses: qual seria a nova carga tributária. Mas a preocupação surgiu em outro lugar.

As alíquotas permaneciam próximas do esperado e a carga fiscal praticamente não havia mudado. O problema apareceu quando a equipe projetou o fluxo de caixa. De repente, a operação passou a exigir quase quarenta dias adicionais de capital de giro para continuar funcionando normalmente.

A primeira reação foi imaginar que havia algum erro na modelagem financeira. Não havia. O que a simulação revelou foi um aspecto da reforma que ainda recebe pouca atenção nas discussões empresariais: o novo sistema não altera apenas quanto a empresa paga de tributos. Ele altera, principalmente, quando o dinheiro sai do caixa e quando retorna na forma de créditos.

Essa mudança decorre da combinação de três mecanismos que passam a fazer parte da nova lógica tributária. O primeiro é que o aproveitamento dos créditos deixa de depender apenas da emissão da nota fiscal e passa a estar vinculado ao efetivo recolhimento do tributo. Se o fornecedor atrasa o pagamento, o crédito também pode atrasar. O segundo é o Split Payment, que direciona parte do valor da operação diretamente ao Fisco no momento da liquidação financeira, reduzindo a disponibilidade imediata de caixa da empresa. O terceiro é que o prazo para ressarcimento dos créditos passa a variar conforme o grau de conformidade tributária do contribuinte.

Isoladamente, cada uma dessas mudanças parece apenas um ajuste operacional. Juntas, porém, elas modificam profundamente a dinâmica financeira das empresas. A reforma deixa de ser apenas um tema de departamento tributário para se tornar também uma questão de tesouraria, planejamento financeiro e gestão de capital de giro.

Depois de mais de vinte anos acompanhando transformações no sistema tributário brasileiro, aprendi que as maiores mudanças raramente acontecem onde todos estão olhando. Enquanto o debate público permanece concentrado nas futuras alíquotas da CBS e do IBS, muitas empresas ainda não perceberam que o maior impacto pode surgir justamente na administração do caixa.

Isso muda inclusive a forma de enxergar a conformidade tributária. Durante muito tempo ela foi tratada como uma obrigação legal, necessária para evitar autuações. No novo modelo, passa a produzir efeitos financeiros concretos. Empresas com melhor nível de conformidade tendem a recuperar créditos com maior velocidade, preservar liquidez e reduzir a necessidade de capital de giro. Já aquelas que permanecerem olhando apenas para a carga tributária poderão acabar financiando o próprio imposto.

A Reforma Tributária promete um sistema mais simples e transparente. Mas ela também inaugura uma nova lógica financeira para as empresas. E talvez a pergunta mais importante neste momento não seja qual será a alíquota que sua empresa pagará daqui a alguns anos, mas se alguém já simulou como ficará o fluxo de caixa quando todas essas regras começarem a funcionar ao mesmo tempo.


Fonte: Rubens Tavares - CEO da BMS Consultoria Tributária.