Em março deste ano, o Brasil registrou 8,9 milhões de empresas inadimplentes, que acumulavam R$ 212,8 bilhões em dívidas, segundo dados da Serasa Experian. O número recolocou a inadimplência empresarial entre os maiores patamares já observados no país. Diante desse cenário, a reação costuma ser previsível: quando o caixa aperta, muitas empresas recorrem à busca por crédito, renegociação de dívidas ou captação de novos investidores.
Esse movimento faz com que oportunidades importantes acabem passando despercebidas. Existe uma cultura muito forte de procurar a próxima oportunidade. O problema é que muita gente faz isso sem avaliar o valor que já construiu. Em vários casos, a empresa está sentada sobre fontes de receita que sequer entram no radar da gestão.
A avaliação vai além de imóveis ou patrimônio físico. Boa parte das empresas brasileiras ainda administra seus recursos de forma fragmentada, sem uma visão clara do potencial econômico que eles podem representar.
Quando falamos sobre valor dentro de uma empresa, as pessoas costumam pensar imediatamente em imóveis. Mas existem espaços pouco aproveitados, estoques parados, equipamentos com baixa utilização, contratos subexplorados, bases de clientes e até relacionamentos comerciais capazes de gerar novas receitas.
A discussão ganha relevância em um momento em que a busca por liquidez voltou ao centro das decisões empresariais. Dados da Serasa Experian mostram que micro e pequenas empresas representam a maior parcela dos CNPJs inadimplentes do país, reforçando os desafios enfrentados por negócios que precisam equilibrar crescimento, rentabilidade e geração de caixa.
Existe também uma questão cultural por trás desse comportamento. Durante décadas, o empreendedor brasileiro foi incentivado a associar crescimento à expansão física, à abertura de novas unidades e à captação de recursos externos. Agora, diante de um ambiente econômico mais seletivo e de crédito mais caro, essa lógica começa a ser questionada.
Muitos empresários foram treinados para expandir, mas não para extrair o máximo valor daquilo que já possuem. Durante muito tempo, crescer significava comprar mais, abrir mais ou captar mais recursos. Hoje, em muitos casos, o melhor investimento está na capacidade de enxergar valor onde antes só se via custo.
Essa mudança de mentalidade já pode ser observada em diferentes segmentos. Empresas têm revisado contratos, reorganizado operações, transformado áreas ociosas em novas fontes de receita e encontrado formas de monetizar recursos que permaneceram durante anos em segundo plano dentro do negócio.
Esse movimento deixou de ser apenas uma medida de eficiência e passou a ocupar um papel estratégico nas decisões de crescimento. "As empresas que vão se destacar nos próximos anos não serão necessariamente as que acumulam mais patrimônio. Serão aquelas que conseguem compreender melhor o valor do que já construíram e transformar esse potencial em resultado.
A discussão toca em uma fragilidade recorrente do ambiente empresarial brasileiro. Em um mercado acostumado a celebrar expansão, captação e crescimento acelerado, ainda se fala pouco sobre a capacidade de gerar valor a partir daquilo que já existe.
Enquanto milhões de empresas enfrentam dificuldades financeiras, uma pergunta começa a ganhar espaço nas mesas de decisão: antes de buscar dinheiro novo, quanto valor ainda permanece escondido dentro do próprio negócio?
Fonte: Marcos Koenigkan - empresário, fundador da MK Participações e do Catálogo das Artes, além de sócio de negócios como LK Engenharia, Show Self Storage e Mercado & Opinião.
