O GENIUS Act deve ser visto não apenas como um projeto de lei americano sobre stablecoins, mas como um possível ponto de referência para Argentina, Brasil e o mercado latino-americano em geral. Em uma região onde o acesso ao dólar, a volatilidade cambial, as remessas internacionais e o comércio transfronteiriço já são importantes motores do uso de stablecoins, regras mais claras nos Estados Unidos poderiam fortalecer a confiança em ativos regulados atrelados ao dólar.
O impacto será diferente em cada mercado. Na Argentina, as stablecoins já cumprem um papel prático como dólares digitais para famílias, autônomos e empresas que buscam se proteger da volatilidade do peso. Um arcabouço regulatório americano mais claro poderia tornar esses instrumentos mais confiáveis e mais fáceis de serem adotados por instituições. No Brasil, onde a infraestrutura doméstica de pagamentos já é bastante avançada, a oportunidade tende a surgir mais na liquidação transfronteiriça, nos pagamentos B2B, nos fluxos de recebíveis do comércio e na integração entre os trilhos (rails) locais de pagamento e a liquidez baseada em dólar.
O efeito mais amplo pode ser o alinhamento regulatório. Se o GENIUS Act estabelecer padrões mais claros sobre reservas, direitos de resgate, obrigações dos emissores, auditorias e supervisão, os formuladores de políticas na América Latina poderão utilizá-lo como referência (benchmark) na elaboração de arcabouços locais para stablecoins. Isso poderia reduzir a incerteza para bancos, fintechs, exchanges e empresas de pagamento que buscam desenvolver serviços baseados em stablecoins.
Regras mais claras nos EUA também poderiam intensificar a concorrência. As stablecoins reguladas atreladas ao dólar podem ganhar mais credibilidade institucional, mas também podem aumentar a dependência de emissores regulados pelos EUA e de esteiras de pagamento que usam o dólar. Os reguladores latino-americanos precisarão equilibrar a inovação com a soberania financeira local, a proteção ao consumidor e o controle de riscos sistêmicos.
No curto prazo, o GENIUS Act pode acelerar a confiança nas stablecoins atreladas ao dólar. No médio prazo, pode influenciar a forma como os mercados latino-americanos desenham sua infraestrutura de pagamentos, seus corredores de remessas e o acesso ao dólar digital. A questão central é saber se os reguladores locais conseguirão adaptar o arcabouço americano a regras que favoreçam a concorrência e a transparência, sem simplesmente importar por completo a infraestrutura do dólar americano.
Fonte: Federico García - gerente regional de crescimento da Bitget Wallet
