Investir com estratégia vale mais do que acertar o ativo da vez




A busca pelo investimento ideal faz parte da rotina de muitos brasileiros. Mas, na prática, especialistas afirmam que o desempenho de uma carteira depende muito mais do planejamento do que da escolha de um ativo específico. Definir objetivos, estabelecer prazos e respeitar a própria estratégia são fatores que costumam fazer mais diferença do que tentar prever os movimentos do mercado.

O tema ganha relevância em um momento em que o número de investidores pessoa física na bolsa brasileira ultrapassa a marca de 5 milhões. Grande parte desse crescimento ocorreu entre 2019 e 2021, período de forte entrada de novos investidores. Muitos, no entanto, iniciaram a jornada motivados pela euforia do mercado e sem um planejamento estruturado, o que aumentou a frustração diante das primeiras oscilações.

Planejamento antes da escolha do investimento:

Ao contrário do que muitos imaginam, escolher um ativo é apenas uma das últimas etapas do processo de investimento. Antes disso, é preciso entender qual é o objetivo financeiro, o prazo disponível e o nível de risco adequado para cada perfil.

Existe uma falsa percepção de que o sucesso está em encontrar o ativo certo. Na realidade, a estratégia pesa muito mais. Sem planejamento, até um bom investimento pode se transformar em um problema, porque o investidor compra sem saber por quanto tempo pretende permanecer aplicado e acaba vendendo no momento errado.

Estudos clássicos sobre alocação de ativos mostram que a maior parte da variação dos resultados de uma carteira ao longo do tempo está relacionada à distribuição entre diferentes classes de ativos, e não à escolha pontual de papéis ou ao chamado timing de mercado.

Objetivos claros reduzem decisões impulsivas

Outro erro frequente é acompanhar diariamente as oscilações dos investimentos e tomar decisões baseadas em movimentos de curto prazo. Para o especialista, esse comportamento costuma aumentar a ansiedade e prejudicar os resultados.

Quem investe para comprar um imóvel em dois anos precisa de uma estratégia completamente diferente de quem está formando patrimônio para a aposentadoria. O objetivo define prazo, liquidez e o risco que faz sentido assumir. Já acompanhar a carteira todos os dias gera mais ruído do que informação e aumenta a chance de decisões precipitadas.

Essa ansiedade, segundo o especialista, também ajuda a explicar por que muitos investidores obtêm retornos inferiores aos do próprio mercado. Isso acontece porque compram ativos após períodos de forte valorização e resgatam aplicações justamente durante as quedas, transformando perdas temporárias em prejuízos definitivos.

Disciplina é o diferencial no longo prazo:

Em cenários de maior volatilidade, manter a estratégia costuma ser mais eficiente do que tentar antecipar os movimentos do mercado. Para isso, o planejamento financeiro também deve contemplar uma reserva de emergência, aportes periódicos e revisões programadas da carteira, evitando mudanças motivadas apenas pelo noticiário.

A estratégia deve mudar quando a vida muda, não somente quando o mercado oscila. Quem possui uma reserva financeira e mantém aportes regulares consegue atravessar períodos de volatilidade sem precisar vender ativos de longo prazo por impulso.

Para quem está começando a investir, a recomendação é priorizar a organização financeira antes de buscar aplicações mais sofisticadas. Construir uma reserva de emergência, automatizar aportes mensais, definir objetivos por escrito e buscar orientação profissional são hábitos que contribuem para decisões mais consistentes ao longo do tempo.

Assim como ninguém deveria se automedicar diante de um problema de saúde, também não faz sentido tomar decisões financeiras importantes sem conhecimento ou orientação adequada. Planejamento é o que transforma investimento em construção de patrimônio.



Fonte: Daniel Abrahão - economista do Grupo Fatorial.