As cidades tropicais precisam voltar a dialogar com o clima




As cidades não adoecem porque o clima mudou. Elas adoecem porque, durante décadas, deixaram de dialogar com ele. A impermeabilização do solo, as fachadas herméticas, a verticalização dissociada da paisagem e a crescente dependência da climatização artificial consolidaram um modelo urbano alheio às condições ambientais do território. Hoje, contudo, a elevação das temperaturas, a intensificação das ilhas de calor e a recorrência de eventos extremos revelam os limites desse paradigma.

No Recife, estudos já apontam o aumento das temperaturas urbanas e o agravamento de fenômenos associados à ocupação intensiva do solo. Em cidades costeiras e marcadas por profundas desigualdades socioespaciais, a emergência climática deixou de ser uma hipótese futura para se tornar uma realidade cotidiana.

Diante desse cenário, uma questão passa a ocupar lugar central no debate contemporâneo: como projetar cidades capazes de conviver com o clima, em vez de insistir em combatê-lo?

Parte dessa resposta começou a ser construída em Pernambuco há quase um século. Entre rios, manguezais e ventos atlânticos, arquitetos como Luiz Nunes, Acácio Gil Borsoi, Delfim Amorim e Armando de Holanda Cavalcanti desenvolveram uma arquitetura profundamente comprometida com as características ambientais locais. Ventilação cruzada, sombreamento, cobogós, brises e integração entre espaços internos e externos não constituíam apenas opções formais, mas soluções capazes de transformar o clima em aliado do projeto.

Essa produção dialogava com uma tradição intelectual igualmente inovadora. No Manifesto Regionalista de 1926, Gilberto Freyre defendia que o Nordeste não deveria buscar sua modernidade na reprodução de modelos importados, mas na capacidade de interpretar o próprio território, reconhecendo clima, cultura e território como fundamentos de uma arquitetura brasileira.

Cem anos depois, essa reflexão ganha um significado ainda mais amplo. O que antes era compreendido como afirmação da identidade regional revela-se, hoje, uma poderosa estratégia de adaptação climática.

Novas tecnologias, como inteligência artificial, modelagem digital e sistemas inteligentes de monitoramento, transformam o planejamento urbano. O desafio é fazer com que reforcem — e não substituam — a inteligência territorial construída ao longo do tempo.

Hoje, o desafio da arquitetura e do urbanismo é reconciliar inovação tecnológica, adaptação climática e identidade territorial. Nesse aspecto, Pernambuco oferece uma contribuição singular.

Não por acaso, a arquitetura tropical volta a ocupar espaço no debate internacional. Mais do que um capítulo da história da arquitetura brasileira, ela representa um repertório de soluções capaz de inspirar cidades mais resilientes, eficientes e humanas.

É justamente essa atualização do legado da arquitetura tropical que volta ao centro das discussões. Nos próximos dias, arquitetos, urbanistas e pesquisadores estarão reunidos em Pernambuco para refletir sobre essa contribuição e sobre os caminhos das cidades tropicais diante das transformações climáticas e tecnológicas.

Talvez, ao final, o maior desafio não seja construir cidades apenas mais inteligentes ou mais tecnológicas. Seja no Recife, no Nordeste ou em qualquer território tropical, a verdadeira questão continua sendo outra: como fazer com que nossas cidades voltem a dialogar com o clima, com a paisagem e com as formas de vida que lhes conferem identidade, beleza e permanência?


Fonte: Roberto Salomão - arquiteto e urbanista. Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE).