A responsabilidade pela crise ambiental é tão repartida que parece não pertencer a ninguém. Fala-se em fábricas, agronegócio, consumo e governos, mas, quando a culpa se espalha por toda parte, sua origem desaparece.
Ignora-se a fonte: uma floresta só é derrubada depois que alguém deixa de enxergá-la como vida. Se a devastação começa num pensamento, é preciso compreender como uma ideia destrutiva se tornou socialmente aceita. Para isso, é necessário desmistificar a conexão entre o ser humano e a natureza.
Essa conexão ainda é tratada com desdém porque a ilusão da separação convém ao modelo atual. É bem mais fácil explorar aquilo que parece externo, mas basta desmontar o corpo humano para que essa fronteira desapareça.
A água que o compõe é a mesma substância que corre nos rios, paira nas nuvens e enche os oceanos. O cálcio dos ossos está nas rochas e no solo. O ferro do sangue nasceu nas estrelas e também integra a Terra. O carbono das células está nas árvores, nos animais e na atmosfera.
Nenhum dos elementos que compõem o corpo é exclusivamente humano. Ele reúne a mesma matéria presente na natureza, organizada provisoriamente de outra forma. Desfeito, o corpo devolve a água ao ciclo, a matéria orgânica a outras vidas e os minerais ao solo.
Reconhecer essa conexão não gera lucro. Ao contrário, impõe limites à exploração e ainda desmonta a ilusão de posse e permanência. Por isso é mais conveniente ridicularizá-la. Ninguém envenenaria o próprio sangue se reconhecesse que a água que o compõe também circula fora do corpo.
Por ser uma organização temporária da mesma matéria que circula pelo planeta e pelo cosmos, o ser humano pode ser compreendido como imagem e semelhança da natureza. Ciência e religião, tantas vezes colocadas em extremos opostos, convergem nesse ponto: a forma humana provém da Terra, depende dela e a ela retorna. Dizer “o homem e a natureza”, como se fossem entidades independentes, é como dizer “o pulmão e o corpo”.
Leis e políticas públicas são indispensáveis, mas combatem apenas parte do problema. A crise ambiental é consequência de uma crise anterior: a de pertencimento. Enquanto o ser humano se imaginar fora da natureza e se comportar como superior a ela, continuará chamando de progresso a destruição daquilo que o mantém vivo.
