Por que imigração não deve ser tratada como um processo intuitivo




Muitos ainda cometem erros graves em processos de imigração acreditando que esse é um campo restrito ao simples preenchimento de formulários. Nada mais equivocado. Imigração exige visão estratégica, leitura de risco, timing preciso, interpretação de cenários e antecipação de consequências jurídicas de cada passo antes que o problema se materialize.

Os números revelam um cenário que exige técnica e preparo: dados oficiais do governo dos Estados Unidos mostram que aproximadamente 10% dos pedidos de ajuste de status, incluindo green cards familiares e por emprego, são negados anualmente, mesmo antes de eventuais apelos ou correções no processo. Ou seja, milhares de imigrantes enfrentam decisões desfavoráveis que poderiam ser evitadas com uma análise técnica mais aprofundada. Isso vale também para vistos temporários: no ano fiscal de 2025, a taxa de recusa dos vistos B1/B2 (turismo e negócios) para brasileiros ficou em cerca de 14,8%, ficando abaixo de 15% em um ambiente ainda marcado por políticas migratórias rígidas.

Esses números não são detalhes técnicos, eles representam vidas, planos e investimentos que podem ser afetados por um único conselho equivocado. Um dos erros mais comuns que observamos nos últimos anos foi justamente o conselho inadequado, e muitas vezes ilegal, dado por consultorias ou pessoas sem licença para advogar, orientando o imigrante a permanecer nos Estados Unidos sem status, com a crença de que um ajuste de status pendente seria suficiente para “proteger” a situação. Para muitos, essa aposta levou à perda de status, exposição a processos de remoção e a consequências muito mais severas do que haviam imaginado.

Esse exemplo ilustra bem o ponto central. Um escritório de advocacia de imigração sério não pode, e não deve, se limitar a olhar um formulário. Um advogado experiente precisa ter uma visão holística do caso, avaliando histórico migratório, entradas e saídas do país, períodos sem status, riscos de presença ilegal, possíveis alegações de fraude ou má representação, antecedentes, impacto futuro para ajustes ou pedidos consulares, perdões, remoção, possibilidade de detenção e até efeitos colaterais de decisões que parecem pequenas no presente.

Faço uma analogia simples: na medicina, enfermeiros, técnicos e toda a equipe têm papéis fundamentais, mas ninguém quer descobrir, no meio de uma cirurgia complexa, que quem conduzia o procedimento não era o médico responsável. Em imigração, é parecido. Existem pessoas que ajudam, organizam documentos e acompanham etapas do processo, mas conduzir a estratégia jurídica, identificar risco, tomar decisões complexas e assumir responsabilidade técnica é papel exclusivo do advogado.

E eu deixo claro, a questão da licença não é uma discussão sobre reserva de mercado, e sim proteção ao imigrante e ao sistema jurídico. Essas regras existem justamente para evitar processos mal feitos, orientações erradas, falsas promessas, documentos inconsistentes, teses mal construídas e um verdadeiro tumulto no sistema migratório, que, quando sobrecarregado, tende a ser mais rígido e menos acolhedor para todos.

Além disso, outros erros comuns que frequentemente levam à negativa de processos incluem: omissão de informações relevantes do histórico migratório ou tentativas de “maquiar” fatos, acreditando que nada será verificado; apresentação de provas ou documentos desorganizados, fracos ou sem coerência estratégica; entrar com um processo sem que os requisitos legais essenciais sejam preenchidos, resultado de uma análise incompleta; confundir autorização de trabalho com status migratório válido; perda de prazos, respostas inadequadas a RFEs (Requests for Evidence) ou NOIDs (Notices of Intent to Deny); e conselhos imprecisos baseados em fóruns, redes sociais ou experiências genéricas, sem análise individualizada.

Imigração não é lugar para amadorismo, improviso ou conselhos genéricos. Cada caso é único, e o que parece simples no início pode se tornar um problema complexo no futuro. Por isso, o papel do advogado de imigração vai muito além de protocolar papéis. Ele é responsável por prevenir problemas, proteger o cliente, tomar decisões conscientes e construir um caso olhando não apenas para o presente, mas também para o impacto futuro de cada escolha jurídica. Em imigração, muitas vezes o erro não aparece no dia do protocolo, ele aparece meses ou anos depois. E quando isso acontece, o custo pode ser altíssimo.



Fonte: Otavio Haverroth - CEO da YOUSA Law Firm