Reforma tributária muda lógica financeira das empresas




A reforma tributária deixou de ser uma preocupação restrita às áreas fiscal e contábil. Com o avanço da transição, o tema passa a afetar decisões de caixa, crédito, formação de preços e margem dentro das empresas. Na prática, a adaptação ao novo modelo tributário também dependerá da qualidade dos dados, da integração entre áreas e da capacidade de simular cenários antes que os impactos cheguem à operação.

Um dos pontos mais sensíveis da reforma é o split payment, mecanismo que prevê a separação do valor do imposto no momento do pagamento. Com ele, a parcela referente aos tributos deixa de ficar temporariamente no caixa do fornecedor e passa a ser direcionada diretamente ao governo. Empresas que hoje contam com esse intervalo entre o recebimento e o recolhimento do imposto terão de rever a necessidade de capital de giro e entender melhor o comportamento do caixa.

Esse recorte, do Senior Live ERP, integra a programação do Senior Experience 2026, evento promovido pela Senior Sistemas no dia 21 de maio, no Transamerica Expo Center, em São Paulo. A segunda edição do encontro reunirá especialistas e executivos para discutir como tecnologia, dados e inteligência artificial já influenciam decisões de gestão e negócio, em meio a mudanças regulatórias e novos desafios de competitividade.

Quando a reforma deixa de ser só tributária:

Para Julio Nogueira, advogado tributarista e especialista em inteligência artificial aplicada ao risco fiscal, o mercado ainda tende a tratar a reforma tributária como uma discussão concentrada nas áreas fiscal, contábil, jurídica e de tecnologia. No entanto, segundo ele, o maior impacto estará na área financeira.

“A reforma é chamada de tributária, mas, na prática, também precisa ser vista como uma reforma financeira. O maior impacto estará no caixa das empresas. É claro que jurídico, contabilidade e tecnologia têm deveres importantes nesse processo, mas quem mais vai sentir os efeitos dessa mudança será a área financeira”, avalia Nogueira.

A análise ganha força ao considerar a convivência entre o modelo atual e o novo sistema tributário nos próximos anos. Nesse período, as empresas terão de lidar, ao mesmo tempo, com regras, bases de cálculo, créditos, documentos fiscais, conciliações e apurações diferentes. O problema não está apenas em cumprir obrigações, mas em entender como a transição pode afetar a formação de preços, a margem e a competitividade.

Empresas que conseguirem antecipar os efeitos no caixa, revisar a formação de preços e organizar melhor seus créditos tendem a atravessar a transição com mais capacidade de competir. Já operações menos preparadas podem enfrentar perda de eficiência, redução de margem e maior necessidade de crédito para sustentar a operação. Ao calcular mal seus créditos ou demorar a rever preços, a empresa pode chegar ao mercado mais cara que concorrentes mais preparados — sem perceber onde perdeu margem.

Como o split payment muda o caixa:

O efeito mais imediato do split payment está no fluxo financeiro. Hoje, em muitos casos, o imposto permanece por um período no caixa da empresa antes do recolhimento. Com a nova lógica, esse valor tende a ser separado no momento do pagamento, o que reduz o espaço para usar esse intervalo como capital de giro.

Essa lógica também se conecta à apuração assistida. O governo passará a oferecer uma visão estruturada sobre débitos e créditos a partir dos documentos fiscais das operações. Para as empresas, isso cria uma exigência: conferir se a leitura do Fisco corresponde ao que está registrado internamente. A conciliação entre a visão do governo e a do ERP passa a ser uma etapa crítica para evitar divergências, inconsistências e decisões baseadas em informações incompletas.

Esse movimento ocorre em um momento de ampliação do uso de dados e de inteligência artificial pela Receita Federal para cruzar informações, analisar o comportamento fiscal e identificar riscos. Segundo Nogueira, esse avanço muda a relação entre empresas e a fiscalização.

“Quando o Fisco passa a olhar para o contribuinte com apoio de dados e inteligência artificial, a empresa também precisa elevar sua capacidade de análise. O ideal é que os sistemas ajudem a companhia a enxergar como o Fisco enxerga, antecipando riscos e apoiando decisões com base em dados”, explica o tributarista.

ERP ganha peso estratégico na gestão:

Nesse cenário, o ERP deixa de ser apenas um sistema de registro das operações e passa a ter uma função mais relevante na interpretação do negócio. A reforma tributária exige que as empresas consigam antecipar impactos antes que eles apareçam no caixa.

A empresa precisa entender como a operação de hoje vai se comportar nos próximos anos da transição. Isso exige simular cenários, acompanhar créditos, débitos e conciliações, além de identificar inconsistências antes que elas virem risco. A tecnologia ajuda a dar mais clareza para o empresário decidir.

O desafio não se limita à adequação dos sistemas às novas regras. A mudança exige uma visão integrada entre o fiscal, o financeiro, a contabilidade, as compras, as vendas e a gestão. Distorções na base de cálculo, classificações incorretas ou leituras incompletas dos créditos podem afetar o custo da operação, a formação de preços e a competitividade frente a concorrentes mais preparados.

Sem dados confiáveis, IA também vira risco:

A inteligência artificial também tende a ganhar espaço nas áreas de backoffice. Processos repetitivos, grandes volumes de dados e rotinas de conferência tornam áreas como o financeiro, o contábil e o compliance mais propícias ao uso de automação, análise preditiva e identificação de exceções. Em alguns casos, atividades que antes consumiam dias podem ser reduzidas a horas, com ganhos de produtividade e maior agilidade nas rotinas.

Para Alexandre Barreto, executivo e especialista em dados e IA, a adoção dessas tecnologias precisa vir acompanhada de governança. Na avaliação dele, empresas que buscam resultados rápidos com a inteligência artificial, mas não cuidam da qualidade dos dados que alimentam essas ferramentas, podem ampliar riscos em vez de reduzi-los.

“A inteligência artificial sem governança de dados pode se transformar em uma máquina de geração de erro com aparência de confiança. A ferramenta pode entregar uma resposta bem estruturada, mas baseada em informações desatualizadas, incompletas ou inconsistentes. Por isso, o dado é o alicerce de qualquer estratégia de IA”, alerta Barreto.

Segundo o especialista, o backoffice passa por uma transformação silenciosa. Ao automatizar tarefas repetitivas e estruturar grandes volumes de dados, a IA permite que as equipes deixem a operação de planilhas e passem a se concentrar em exceções, análises e decisões que exigem mais leitura crítica do negócio.

O risco de adiar a adaptação:

Esse ponto se torna ainda mais crítico no contexto da reforma tributária. Com novas regras, fiscalização cada vez mais baseada em dados e a necessidade de conciliar informações fiscais e financeiras, as empresas terão de combinar conhecimento técnico, tecnologia e capacidade de interpretar melhor os dados para preservar eficiência e competitividade.

A preparação precisa começar antes da obrigatoriedade plena das novas rotinas. A reforma tributária não pode ser tratada como um ajuste de última hora. As empresas precisam olhar para seus dados, seus processos e sua capacidade de simular impactos agora. Quanto maior a complexidade da operação, maior será a necessidade de previsibilidade.

O Senior Experience chega à segunda edição com expectativa de mais de 2 mil participantes, cerca de 80 palestrantes, cinco trilhas simultâneas e mais de 40 marcas conectadas ao ecossistema da Senior Sistemas. A programação reúne debates sobre tecnologia, gestão, liderança e negócios.

Dentre os temas de destaque sobre a Reforma Tributária e também de IA, no evento, estão as palestras “Reforma Tributária + IA: simplificando o complexo”, de Julio N. Nogueira, e “Os impactos da reforma tributária na cadeia logística”, com Ozoni Argenton, na Arena Oracle. Eu,Valmir Hammes conduzirei a temática “Reforma Tributária e tecnologia: por que seu ERP precisa evoluir”, na Arena Senior. Já Alexandre Barreto fala sobre IA e Dados na Plenária do Senior Experience.



Fonte: Valmir Hammes - head de ERP Compliance da Senior Sistemas e especialista em legislação e tecnologia.