Sustentabilidade e governança impulsionam lucro e legado




Por décadas, o sucesso corporativo foi tradicionalmente mensurado pela performance financeira, pela maximização de lucros e pelo retorno aos acionistas. Contudo, o século 21 impôs uma redefinição profunda e inegociável dessa equação. Hoje, a sustentabilidade e a governança, pilares do conceito ESG (Environmental, Social, Governance), não são mais pautas de nicho, visto que se consolidaram como pilares estratégicos e inegociáveis para a prosperidade e a relevância de qualquer organização com visão de futuro.

Como executiva de uma empresa que entende e pratica essa nova realidade, vejo que o "além do lucro" é, na verdade, o caminho mais seguro para um lucro mais perene e significativo. Essa visão se torna ainda mais poderosa quando a agenda ESG se desdobra de maneiras específicas e complementares em diferentes segmentos de mercado, seja na área de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), agronegócio, imobiliário ou entretenimento, por exemplo. A urgência das questões ambientais, do aquecimento global à escassez de recursos e à perda de biodiversidade, transformou a pauta ecológica de um custo operacional para um vetor de inovação e eficiência.

Empresas que mitigam seu impacto ambiental, buscando por soluções em descarbonização, economia circular e uso consciente de recursos, estão agindo de forma responsável, mas, sobretudo, construindo resiliência. Não à toa, muitos investidores entenderam a relevância dessas iniciativas e exigem compromissos claros e mensuráveis com a transição para uma economia de baixo carbono, cientes de que empresas alheias a essa agenda representam riscos financeiros cada vez maiores. Assim, a cobrança por avanços nessa agenda não vem apenas de reguladores e ativistas, mas também do próprio mercado financeiro.

No âmbito social, o imperativo se manifesta na atração e retenção de talentos, um dos maiores desafios do mercado contemporâneo. Gerações mais jovens, como a Gen Z (nascidos entre 1997 e 2012), buscam propósito e impacto em seus locais de trabalho, avaliam as organizações pelo salário, mas também pelos seus valores e sua contribuição para a sociedade. Uma cultura corporativa pautada na diversidade, equidade e inclusão, em condições de trabalho justas e no desenvolvimento humano, além de moralmente correta, é vital para a inovação e a produtividade.

Além das fronteiras internas, o "S" se estende à responsabilidade na cadeia de suprimentos, ao relacionamento com as comunidades e ao impacto positivo gerado no entorno, garantindo a tão necessária "licença social para operar" e protegendo a reputação da marca.

A Governança, por sua vez, é a espinha dorsal que sustenta os pilares Ambiental e Social. Sem uma estrutura sólida de ética, transparência, conformidade (compliance) e gestão de riscos, qualquer outra iniciativa pode ruir. É a governança robusta que garante que as promessas ambientais e sociais sejam cumpridas, que a prestação de contas seja efetiva e que as decisões corporativas reflitam o interesse dos acionistas e de todos os stakeholders.

Crises e irregularidades corporativas, muitas vezes enraizados em falhas de governança, são lembretes contundentes de que a reputação e a confiança, construídas em décadas, podem ser pulverizadas em segundos. Uma governança forte é, portanto, a base para a sustentabilidade da própria empresa, assegurando sua longevidade e atratividade para investidores conscientes.

O conjunto desses princípios é um robusto diferencial competitivo. Empresas com alto desempenho ESG atraem capital consciente, desde fundos de impacto até investidores institucionais que buscam a solidez de companhias bem geridas e de baixo risco. Elas conquistam a preferência de consumidores que alinham suas escolhas de compra com seus valores, e se posicionam à frente de regulamentações futuras. A própria percepção de "materialidade" evoluiu: organizações não avaliam apenas como fatores externos impactam seu valor financeiro, mas também como sua operação impacta o mundo – o conceito de dupla materialidade.

Em suma, o que testemunhamos é uma transformação estrutural do capitalismo. O protagonismo da sustentabilidade e governança nos negócios modernos é um caminho sem volta. As empresas que prosperarão no futuro serão aquelas que entenderam que o verdadeiro sucesso empresarial no século 21 está na capacidade de gerar lucro sem abrir mão de contribuir positivamente para o planeta e a sociedade, com ética e transparência inabaláveis. O lucro, neste novo paradigma, não é o único destino, mas o resultado natural de uma jornada de valor compartilhada.



                                   


Fonte: Marianna Garcia - Coordenadora de Marca Corporativa e Relações Institucionais do Grupo Algar