A logística reversa costuma ser tratada, no debate público, como uma obrigação ambiental ou regulatória. No entanto, no contexto brasileiro, seu papel vai muito além do cumprimento de metas: ela se configura como uma das principais engrenagens de inclusão produtiva do país, conectando a gestão de resíduos à geração de renda e ao desenvolvimento local.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento indicam que apenas cerca de 4% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados formalmente no Brasil. Trata-se de um índice baixo, especialmente quando comparado ao potencial de recuperação de materiais disponíveis.
Dentro dessa lacuna, há um protagonista muitas vezes invisibilizado: os catadores
Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, esses trabalhadores são responsáveis por mais de 90% de tudo o que é reciclado no país. Isso evidencia que a eficiência da logística reversa não depende apenas de sistemas formais, mas está diretamente ligada à estruturação, valorização e integração desses profissionais na cadeia.
Quando há investimento em organização e infraestrutura, os resultados são concretos. Estudos apontam que cooperativas estruturadas podem triplicar sua produtividade com acesso a equipamentos, capacitação e canais estáveis de comercialização. Esse ganho operacional se traduz em aumento de renda, maior previsibilidade e melhores condições de trabalho.
No caso das embalagens de aço, esse ciclo tende a ser ainda mais eficiente. O material possui alto valor de revenda, ampla aceitação pela indústria recicladora e uma vantagem operacional relevante: pode ser separado por magnetismo, o que reduz perdas e aumenta a eficiência da triagem. De acordo com a World Steel Association, o aço é o material mais reciclado do mundo, com mais de 650 milhões de toneladas recicladas anualmente.
É nesse contexto que iniciativas estruturadas fazem diferença
A atuação da PROLATA Reciclagem ilustra como a logística reversa pode ir além da destinação correta de resíduos. Ao conectar indústria, cooperativas, operadores e siderúrgicas, a entidade contribui para organizar fluxos, qualificar processos e garantir que as embalagens de aço retornem ao ciclo produtivo de forma eficiente.
Na prática, estruturar essa cadeia significa aumentar a produtividade, reduzir perdas e melhorar a qualidade do material reciclado. Mas significa também algo mais amplo: gerar renda de forma mais consistente, fortalecer organizações locais e ampliar as oportunidades para quem já sustenta a reciclagem no Brasil.
Outro aspecto relevante está na retenção de valor na economia. Estudos do Banco Mundial indicam que cadeias de reciclagem mais estruturadas aumentam a circulação de renda em nível local, potencializando os impactos econômicos positivos da gestão de resíduos.
Por isso, limitar a logística reversa a uma pauta ambiental é reduzir seu verdadeiro alcance.
Quando bem estruturada, ela se consolida como uma política prática de desenvolvimento: reduz impactos ambientais, fortalece cadeias produtivas e promove inclusão produtiva em larga escala.
Mais do que uma obrigação, trata-se de uma oportunidade concreta de alinhar eficiência operacional, responsabilidade ambiental e impacto social — e de reconhecer que, no Brasil, a economia circular já nasce, em grande parte, pelas mãos de quem vive dela.
Fonte: Thais Fagury - presidente executiva da Abeaço – Associação Brasileira de Embalagem de Aço.
