A temporada do Imposto de Renda 2026 entra em sua fase decisiva com um novo vetor de risco ganhando protagonismo devido ao descompasso entre crédito contratado e patrimônio declarado. O movimento já começa a aparecer nos dados parciais de envio e indica uma mudança estrutural na forma como a Receita Federal identifica inconsistências.
Segundo o fisco, mais de 20 milhões de declarações já foram entregues até a primeira metade de abril, de um total esperado superior a 43 milhões neste ano. O volume segue em linha com anos anteriores, mas o padrão de fiscalização evoluiu e, com ele, o tipo de erro que leva contribuintes à malha fina.
Na leitura da Finanto, fintech especializada em acesso ao crédito, surge uma nova dinâmica com a “malha fina do crédito”. A Receita deixou de olhar apenas para renda e passou a analisar com mais profundidade a coerência patrimonial do contribuinte. Isso inclui, necessariamente, o uso de crédito. Quando essa conta não fecha, o sistema identifica rapidamente.
O pano de fundo dessa mudança é o avanço do crédito no país. Dados do Banco Central mostram que o estoque de crédito para pessoas físicas segue elevado, impulsionado por modalidades como consignado e crédito pessoal. Esse aumento, no entanto, nem sempre é refletido corretamente na declaração.
Na prática, isso cria um dos principais gatilhos de inconsistência em 2026 com contribuintes que declaram aquisição de bens ou aumento de patrimônio sem indicar a origem dos recursos, especialmente quando ela vem de empréstimos. Se a pessoa compra um carro, reforma um imóvel ou faz qualquer movimentação relevante sem declarar o crédito, a Receita pode interpretar como renda omitida.
Embora empréstimos não sejam considerados renda tributável, a Receita exige que valores acima de R$ 5 mil sejam informados na ficha de “Dívidas e Ônus Reais”. A omissão dessa informação compromete a consistência da evolução patrimonial, um dos principais critérios analisados pelos sistemas atuais.
Outro fator que amplifica esse risco é a digitalização do processo. Com a consolidação da declaração pré-preenchida e o cruzamento automático de dados bancários, financeiros e cadastrais, inconsistências que antes passavam despercebidas agora são identificadas quase em tempo real.
A tese da “malha fina do crédito” também reflete uma mudança de comportamento do próprio contribuinte. Em um cenário de maior acesso a crédito, cresce o número de pessoas que utilizam empréstimos para organizar a vida financeira, mas sem incorporar essa dinâmica à lógica da declaração.
Com a aproximação do fim do prazo de entrega, a tendência é de aumento no volume de declarações enviadas sob pressão, cenário historicamente associado a mais erros. Neste ano, porém, o impacto pode ser maior, justamente pela sofisticação dos mecanismos de análise. A recomendação é tratar o crédito com o mesmo nível de atenção dado à renda e aos bens e garantir que todas as movimentações estejam refletidas corretamente na declaração.
Fonte: Kaike Ribeiro - CEO da Finanto.
