O aumento da inadimplência das famílias brasileiras nos últimos anos está diretamente associado ao encarecimento do crédito e ao uso crescente de linhas mais onerosas, como cartão de crédito e crédito pessoal. É o que mostra estudo da LCA Consultoria Econômica, que analisa a evolução recente do endividamento e da capacidade de pagamento das famílias no país.
De acordo com a LCA, a inadimplência da carteira de crédito para pessoas físicas atingiu 5,2% em fevereiro de 2026, patamar próximo ao pico histórico de 5,5% registrado em 2012. A alta recente está concentrada nas dívidas com o setor financeiro, especialmente nas linhas de crédito livre, que combinam maior acessibilidade com taxas de juros mais elevadas.
A inadimplência média dessas modalidades chegou a 6,9% no período. Dentro desse grupo, o cartão de crédito se destaca como principal vetor de deterioração: a inadimplência do rotativo alcança 64,5%, enquanto o parcelado registra 13,1%. Já o crédito pessoal apresenta inadimplência de 8,4%. Em contraste, o crédito direcionado — como financiamento imobiliário e rural — mantém níveis mais baixos, de 3,2%, ainda que com leve alta recente.
Segundo a LCA, o cenário reflete, em grande medida, o ambiente de juros elevados no Brasil, que encarece o custo do crédito e pressiona o orçamento das famílias. Esse efeito é amplificado pelo uso crescente de linhas mais caras, que exigem maior esforço financeiro para pagamento. Hoje, as famílias brasileiras já destinam mais de 9% da renda ao pagamento de juros.
O problema da inadimplência não parece estar no tamanho do endividamento das famílias, mas na má qualidade desse endividamento, altamente alavancado em dívidas de curto prazo e taxas de juros que estão entre as mais altas do mundo.
Apesar do avanço recente, o nível de endividamento das famílias brasileiras ainda é relativamente baixo em comparação internacional, equivalente a cerca de 34% do PIB. Em países como Estados Unidos e Alemanha, essa proporção é de 69% e 49%, respectivamente. Para a LCA, esse contraste reforça que o principal desafio no Brasil está menos no tamanho da dívida e mais no seu custo e composição.
Bets têm impacto limitado sobre a inadimplência agregada
O estudo também analisa o papel das apostas online no orçamento das famílias e sua possível relação com o aumento da inadimplência. A conclusão é que o impacto agregado do mercado é limitado.
Em 2025, os gastos com bets legais representaram apenas 0,46% do consumo das famílias no PIB, ou R$ 37 bilhões por ano, o equivalente ao gasto com bebidas alcoólicas (R$ 40,5 bilhões), cerca de um quarto do gasto com celulares e acessórios (R$ 152 bilhões) e aproximadamente 5% das despesas com juros das famílias (R$ 696,8 bilhões).
A análise da LCA também mostra que o perfil dos apostadores difere do perfil dos inadimplentes no Brasil. Enquanto os inadimplentes representam 38,1% da população, os apostadores somam 11,8%. Entre os apostadores, há predominância masculina, ao passo que, entre os inadimplentes, há maior equilíbrio entre homens e mulheres. Além disso, mais de 74% dos apostadores têm menos de 40 anos, enquanto mais de 54% dos inadimplentes estão acima dessa faixa etária.
Os dados indicam que as apostas podem afetar o orçamento de grupos específicos, mas não possuem escala suficiente para explicar o comportamento geral da inadimplência no país, que segue mais diretamente relacionado ao custo do crédito, ao nível de juros e à estrutura do sistema financeiro.
Fonte: Eric Brasil - diretor da LCA e responsável pelo estudo.
