Juros altos derrubam valuations e mudam o jogo das startups




Depois de um período marcado por juros baixos, abundância de capital e rodadas superavaliadas, o mercado de startups agora enfrenta um cenário de juros elevados e expectativa de retorno muito mais rigorosa. Essa mudança redefine a forma como fundos investem, como as startups captam e principalmente, como o mercado projeta os lucros futuros. Embora a turbulência assuste uma parte do ecossistema, especialistas enxergam um momento fértil para novas teses de investimento, especialmente no mercado secundário.

Nos anos de 2020 e 2021, com os juros praticamente zerados, o volume de capital de risco disparou. O Brasil acompanhou o movimento global. Os fundos correram para investir em empresas que cresciam rápido, ainda que operassem no prejuízo. Para esse mercado, o lucro futuro costuma ser o principal argumento de valorização. Investidores aceitam novas rodadas em múltiplos altos porque acreditam que, lá na frente, o retorno compensará o risco. Entretanto, essa lógica depende totalmente da taxa de juros.

Quando a inflação global subiu, os bancos centrais tiveram de reagir. Juros altos derrubam o valor presente da projeção futura de lucros. Em outras palavras, quanto maior a taxa, menor o valor que uma projeção de lucro daqui cinco ou dez anos tem hoje. Portanto, o investidor exige mais retorno para compensar essa espera. Quem pode aplicar em títulos públicos ou CDBs com rendimento alto pensa duas vezes antes de aceitar uma aposta longa em uma startup ainda deficitária.

Esse movimento derrubou as avaliações de empresas de crescimento acelerado. Cada ponto percentual a mais nos juros provoca, segundo especialistas, uma queda relevante no valor de companhias focadas em expansão. O efeito foi amplo e startups que antes recebiam aportes facilmente começaram a enfrentar rodadas mais cautelosas, mais demoradas e com valores menores. Enquanto isso, os juros se mantêm elevados há anos, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, onde a queda das taxas segue muito mais lenta que o esperado.

Dentro desse cenário, muitos fundos chegaram ao fim do seu ciclo natural sem conseguir liquidez. Um fundo tradicional dura entre 6 e 10 anos, período em que investe, acompanha e, finalmente, precisa realizar seus retornos. Entretanto, sem IPOs no Brasil, e com um mercado americano ainda tímido, vender participações se tornou muito mais difícil. Isso gerou uma pressão inédita e ‘criou’ fundos com ativos bons, mas travados, sem saída clara.

É nesse ponto que surge uma das tendências mais fortes para startups: o crescimento expressivo dos fundos de secundário. Esse tipo de fundo compra participações de outros fundos que estão no fim de vida e precisam liquidar posições. A base de investidores inclui grandes instituições, como fundos de pensão, seguradoras e patrimônios familiares de empresas tradicionais. São players que geram lucro constante e têm capital para investir mirando ciclos mais longos.

Esses fundos encontram hoje uma oportunidade rara que foi comprar participações de boas startups com desconto, justamente porque o fundo original não consegue esperar mais anos até uma liquidez estrutural. Desse modo, se o mercado está travado e as avaliações caíram muito por causa dos juros altos, então há espaço para comprar barato agora é vender quando o ciclo virar.

Vários gestores já começam a reformular suas teses com base nesse movimento. Se antes o foco era apenas o crescimento acelerado, hoje há quem diga abertamente que a estratégia é aproveitar o prolongado período de falta de liquidez para adquirir participações atrativas. Quando os juros voltarem a cair, e o mercado retomar IPOs, fusões e aquisições, essas posições podem gerar retornos superiores ao que o investidor conseguiria em títulos públicos ou na bolsa.

O interesse é tão grande que, segundo análises publicadas recentemente, cerca de 60% do capital novo estaria sendo direcionado para fundos secundários. Os números mostram que a tendência não é pontual, mas sim uma mudança estrutural na forma como o capital será alocado nos próximos anos. O setor busca equilíbrio entre risco e retorno em um ambiente menos exuberante e mais racional.

Para as startups, essa dinâmica cria um novo mapa de oportunidades. Empresas precisam demonstrar métricas mais consistentes, controlar custos e apresentar caminhos reais para lucratividade. Ao mesmo tempo, ganham uma nova alternativa de liquidez: vender participações para fundos especializados em secundário, aliviando pressões internas e oferecendo saída parcial a investidores antigos.

O mercado segue longe da euforia de quatro anos atrás, mas os movimentos atuais revelam maturidade. O capital ainda existe, mas circula de modo mais estratégico. Os fundos buscam previsibilidade e preço, enquanto startups ajustam seus modelos para entregar valor real, e não apenas projeções. Nesse ambiente, quem entender a nova lógica dos juros, dos lucros futuros e da liquidez limitada terá vantagem competitiva no próximo ciclo de crescimento.


Fonte: Alex Tabor - CEO da Tuna Pagamentos