A transformação tecnológica e energética da economia global está criando uma pressão sem precedentes sobre o mercado de minerais críticos. Elementos como neodímio, disprósio e praseodímio, utilizados principalmente na fabricação de ímãs permanentes de alta performance — tornaram-se essenciais para setores que vão da mobilidade elétrica à automação industrial. O desafio é que a demanda por esses materiais cresce em ritmo muito superior à capacidade de expansão da oferta.
Segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global por minerais críticos ligados à transição energética pode crescer até quatro vezes até 2040. No caso específico dos elementos utilizados em ímãs permanentes, o crescimento pode ser ainda maior, impulsionado pela eletrificação da economia e pela expansão da infraestrutura energética.
Os ímãs de neodímio são hoje considerados insumos estratégicos para motores elétricos de veículos híbridos e elétricos, turbinas eólicas, sistemas de automação industrial, equipamentos médicos e uma ampla variedade de tecnologias digitais. Estimativas da consultoria Adamas Intelligence indicam que mais de 40% do consumo global de terras raras está ligado à fabricação de ímãs permanentes, segmento que deve registrar crescimento contínuo nas próximas décadas.
Apesar da expansão da demanda, a produção global permanece altamente concentrada. Dados do U.S. Geological Survey mostram que a China responde atualmente por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras e mais de 85% do processamento e fabricação de ímãs de alta performance. Essa concentração gera preocupações recorrentes em governos e empresas, especialmente após os gargalos logísticos observados durante a pandemia e em momentos de tensão geopolítica.
O mercado ainda subestima a importância estratégica desses materiais. Quando se fala em transição energética ou digitalização da indústria, a atenção costuma estar nas tecnologias finais. Pouca gente olha para os materiais que tornam essas tecnologias possíveis.
O desafio da oferta está diretamente ligado à complexidade da cadeia produtiva. A mineração é apenas a primeira etapa. Após a extração, os minerais passam por processos sofisticados de separação química, refino e transformação industrial até se tornarem componentes de alta performance. Essas etapas exigem conhecimento técnico, infraestrutura industrial e investimentos significativos, o que explica por que poucos países dominam toda a cadeia.
A expansão da produção também enfrenta obstáculos regulatórios e ambientais. Projetos de mineração de terras raras costumam levar entre 10 e 15 anos para entrar em operação, considerando licenciamento ambiental, viabilidade econômica e construção de infraestrutura. Esse prazo contrasta com o ritmo acelerado da demanda global por tecnologias baseadas nesses materiais.
O mundo está acelerando a eletrificação, a digitalização e a automação ao mesmo tempo. Todas essas transformações dependem de minerais críticos. A questão é que abrir novas minas e construir capacidade industrial leva tempo.
No Brasil, o debate sobre minerais estratégicos ganha importância à medida que o país possui reservas relevantes desses elementos, mas ainda participa de forma limitada nas etapas de maior valor agregado da cadeia. Para especialistas, o desafio brasileiro não está apenas na mineração, mas no desenvolvimento de uma estrutura industrial capaz de transformar esses recursos em tecnologia e componentes.
Enquanto governos e empresas discutem estratégias para garantir acesso seguro a minerais críticos, uma questão começa a ganhar espaço entre analistas de mercado: se a demanda continuar crescendo no ritmo atual, a oferta global pode enfrentar dificuldades para acompanhar.
Não se trata apenas de mineração. Trata-se de indústria, tecnologia e estratégia econômica. Quem dominar essas cadeias terá uma vantagem importante na economia das próximas décadas.
Fonte: Rodolfo Midea - especialista em cadeias internacionais de fornecimento e diretor da Fácil Negócio Importação.
