A Reforma Tributária expôs fragilidades que por anos permaneceram diluídas na rotina operacional das empresas. Com a chegada do novo IVA, inconsistências antes toleradas passaram a ter efeito direto no caixa, transformando o alinhamento entre contabilidade e fiscal em um fator crítico para a preservação de créditos e a tomada de decisões estratégicas.
Enquanto grande parte do debate ao longo de 2025 se concentrou em alíquotas, split payment e regras de transição, um risco silencioso cresceu dentro das operações das empresas brasileiras: as divergências entre contabilidade e fiscal. Com a entrada em vigor da Lei Complementar 214/2025, esse desalinhamento deixou de ser um problema operacional e passou a representar perdas financeiras relevantes, muitas vezes invisíveis no dia a dia.
A legislação foi clara ao exigir que todo crédito de IBS e CBS estivesse lastreado em documento fiscal eletrônico idôneo, com perfeita convergência entre lançamento contábil, classificação fiscal e informações do XML da nota. Na prática, qualquer inconsistência passou a resultar em glosa de crédito, mesmo quando a despesa era legítima. Diagnósticos realizados ao longo do último ano mostraram que a maioria das empresas apresentava algum nível de divergência, seja por classificações incorretas, cadastros fiscais genéricos ou falhas acumuladas ao longo do tempo.
O impacto financeiro dessas inconsistências se mostrou expressivo. Em empresas de grande porte, pequenas taxas de divergência foram suficientes para colocar em risco milhões de reais por ano em créditos de IBS e CBS, além de multas e distorções no fluxo de caixa. O problema se agravou porque, sem corrigir essas falhas, qualquer projeção de impacto da Reforma Tributária tornou-se imprecisa, comprometendo decisões estratégicas sobre margem, preço e investimento.
O que ficou claro em 2025 é que a preparação para o novo IVA não começa na alíquota, mas na qualidade da informação. Empresas que anteciparam auditorias contábil-fiscais entraram em 2026 com visibilidade, previsibilidade e capacidade de decisão. As que adiaram passam agora a reagir quando o risco já está materializado. Em um ambiente de fiscalização mais rigoroso, a diferença esteve entre corrigir antes ou pagar depois. Mas ainda dá tempo de evitar que os problemas aumentem.
