Como o estado de espírito social influencia as decisões econômicas

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Em um cenário marcado por volatilidade econômica e tensões sociais, a chamada economia emocional ganha relevância como chave para entender como indivíduos e mercados tomam decisões que vão além dos pressupostos clássicos de racionalidade plena. Emoções como confiança, medo, expectativa e otimismo influenciam diretamente nas escolhas de consumo, poupança, investimento e contratação em toda a América Latina. Estudos indicam que apenas cerca de 20% das decisões de compra são tomadas de forma estritamente racional, evidenciando o papel central das emoções na dinâmica das finanças pessoais e do comportamento econômico.

No Brasil, essa dinâmica ficou evidente em 2025. De acordo com a Análise de Clima Emocional (ECR), desenvolvida pela Delta Analytics para a Latam Intersect, a expectativa foi o sentimento predominante durante todo o período, sustentada principalmente por três eixos: pressões inflacionárias, condução da política monetária e percepção de risco fiscal.

O ponto mais elevado ocorreu em janeiro (48,23%), quando as estimativas de mercado para a inflação e as primeiras orientações do Comitê de Política Monetária, o Copom, passaram a direcionar a narrativa econômica. Em fevereiro, a aceleração do IPCA, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, reforçou a leitura de um cenário de condições monetárias mais restritivas.

Ao longo do ano, discussões sobre o equilíbrio das contas públicas, a meta fiscal de 2025 e o ritmo da execução orçamentária, somadas no segundo semestre aos indicadores de atividade econômica e investimento, passaram a embasar as perspectivas para 2026, mantendo o noticiário focado na formulação de cenários futuros e oportunidades emergentes.

Esse padrão brasileiro contrasta com outras economias da região. Na Argentina, a primeira metade de 2025 foi marcada por reações de surpresa, enquanto o final do ano, em meio ao calendário eleitoral, foi dominado por sentimentos de apreensão. No México, o medo prevaleceu durante grande parte do ano, ainda que entre agosto e outubro tenha sido observada uma redução relevante dessa percepção. As análises também fazem parte do levantamento conduzido pela Delta Analytics para a Latam Intersect.

Em escala regional, estados emocionais como confiança, cautela, expectativa e otimismo influenciaram decisões relacionadas a consumo, poupança, alocação de capital e contratações. Levantamentos indicam que apenas um quinto das decisões de compra ocorre de maneira estritamente racional, evidenciando o peso dos fatores comportamentais nas finanças pessoais. Estudos em economia comportamental e psicologia mostram que o humor coletivo afeta diretamente a avaliação de riscos, a percepção de ganhos e a hierarquização de alternativas financeiras.

Essas dinâmicas também aparecem em indicadores agregados de sentimento, como os índices de confiança do consumidor. Em 2025, houve avanço expressivo desse indicador na América Latina, com destaque para Argentina (+6,5 pontos), Colômbia (+3,4 pontos) e Peru (+3,1 pontos), impactando hábitos de gasto e projeções de médio prazo. Paralelamente, o estudo recente da Latam Intersect intitulado “Confiança em tempos incertos: compreendendo o consumidor latino-americano em 2026” aponta que, embora as expectativas para o próximo ciclo permaneçam favoráveis, pressões econômicas e fadiga social continuam condicionando o comportamento de compra e a relação com as marcas.

A análise demonstra que interpretar o estado emocional do consumidor é tão essencial quanto acompanhar variáveis macroeconômicas tradicionais. Esses insights oferecem uma leitura mais precisa das tendências de consumo e das projeções para a América Latina.

A influência da economia emocional extrapola o indivíduo e se reflete também em decisões corporativas e estratégias de investimento. Pesquisas acadêmicas relacionam o humor social a resultados empresariais, como o desempenho de operações de fusão e aquisição e até a precificação de ativos, sobretudo quando métricas de sentimento extraídas de conteúdos públicos coincidem com períodos de apreensão ou surpresa coletiva.

Os dados confirmam que as emoções não atuam como elementos secundários nas escolhas econômicas; elas ocupam posição central. A oscilação da confiança do consumidor na América Latina ilustra como o sentimento coletivo se traduz de forma direta em padrões de consumo e planejamento financeiro.

Para formuladores de políticas públicas, líderes empresariais e marcas atuantes na região, reconhecer o papel da economia emocional deixa de ser apenas uma reflexão conceitual e passa a constituir uma ferramenta prática para estruturar estratégias, comunicações e decisões mais alinhadas às aspirações, expectativas e preocupações da sociedade — favorecendo a antecipação de comportamentos, o fortalecimento da credibilidade e a construção de escolhas econômicas mais resilientes em um contexto de transformação contínua.


Fonte: Lívia Gammardella - head de marketing da Latam Intersect.