Biometria ocupa papel central nos processos de abertura de contas




No último ano, o número de pessoas incluídas no Sistema Financeiro Nacional (SFN) ultrapassou a marca de 200 milhões, conforme dados do Banco Central. O avanço da bancarização reflete uma mudança profunda na forma como os brasileiros se relacionam com o dinheiro. 

A criação do Pix, a expansão dos bancos digitais e a consolidação do comércio eletrônico transformaram o acesso aos serviços financeiros. O resultado é uma inclusão inédita, com efeitos diretos sobre o desenvolvimento econômico, a redução de desigualdades e o acesso ao crédito.

Mas essa transformação, que amplia horizontes, também expõe milhões de pessoas a novos riscos. Conforme pesquisa da Febraban, 39% dos brasileiros já foram vítimas de algum tipo de golpe (ou tentativa) envolvendo suas contas bancárias. O setor financeiro vive um paradoxo: é referência mundial em inovação e, ao mesmo tempo, enfrenta o crescimento acelerado das fraudes virtuais. O desafio, portanto, é fazer com que inovação e segurança caminhem juntas.

Nesse contexto, a biometria passou a ocupar papel central nos processos de abertura de contas e no acesso a aplicativos bancários, funcionando como uma camada adicional de segurança. O uso de dados biométricos, como o reconhecimento facial, dificulta a ocorrência de fraudes. Ao mesmo tempo, trata-se de um dado pessoal extremamente sensível, pois, diferentemente das senhas, não pode ser alterado. Sua utilização exige padrões elevados de proteção, transparência e conformidade com as normas regulatórias.

O avanço tecnológico, no entanto, não foi acompanhado pelo letramento financeiro e pela conscientização da população. Milhões de pessoas não compreendem plenamente os riscos envolvidos nem a importância dos dados pessoais. Muitas vulnerabilidades não decorrem da tecnologia, em si, mas da desinformação.

Esse descompasso ficou evidente no episódio recente em que se formaram enormes filas na cidade de São Paulo de pessoas dispostas a fornecer a íris em troca de dinheiro. O caso chamou atenção não apenas pelo ineditismo, mas também por expor uma fragilidade social preocupante: a normalização da cessão de dados biométricos. Essas pessoas tinham plena ciência das possíveis consequências? Evidente que não. Trata-se de uma informação permanente e inalterável, cujo vazamento pode causar danos irreversíveis.

Não há dúvida de que a biometria, se utilizada de forma correta, torna-se uma das mais eficazes barreiras contra ações fraudulentas, protegendo o patrimônio e a identidade do consumidor. Entretanto, a segurança do sistema financeiro não depende apenas de aspectos técnicos, mas também de fatores culturais e educacionais.

É necessário um esforço conjunto. Instituições financeiras devem continuar investindo não apenas em tecnologias de proteção, mas também em comunicação clara e acessível com seus clientes. 

Ao Banco Central, cabe fortalecer as normas regulatórias e garantir que a tecnologia avance em consonância com a proteção do sistema financeiro. A sociedade civil, por sua vez, tem o papel de incentivar o debate público e a educação digital. Inovação financeira só se sustenta quando acompanhada de segurança, letramento e responsabilidade.



Autor: Stefano Ribeiro Ferri - especialista em Direito do Consumidor e da Saúde. Relator da 6ªTurma do Tribunal de Ética da OAB/SP e membro da Comissão de Direito Civil da OAB –Campinas. Formado em direito pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).