Por que projetos de restauração que ignoram a fauna produzem paisagens verdes, porém frágeis diante das mudanças climáticas.
Nos últimos anos, o discurso do turismo sustentável e regenerativo ganhou força no Brasil. RPPNs, turismo de natureza, trilhas interpretativas e experiências imersivas em áreas restauradas passaram a ocupar um lugar central nas estratégias de conservação associadas ao uso responsável do território.
Apesar desse avanço, um ponto crítico ainda é pouco debatido fora do meio técnico: grande parte dos projetos de restauração ecológica continua sendo planejada a partir de uma lógica vegetação-cêntrica, na qual a fauna é tratada como consequência esperada da recomposição da cobertura vegetal — e não como elemento estruturante do sistema.
Na prática, presume-se que plantar árvores seja suficiente para que as interações ecológicas se restabeleçam automaticamente. No entanto, evidências da ecologia funcional e da restauração mostram que essa suposição é frágil.
Áreas restauradas que recompõem a vegetação, mas não oferecem alimento, abrigo e condições de permanência para a fauna, tendem a apresentar funcionalidade ecológica parcial, com baixa capacidade de regeneração natural e alta dependência de manutenção humana.
Do ponto de vista do turismo de natureza, o limite é evidente: paisagens sem fauna funcional podem ser verdes e bonitas, mas não sustentam vida.
O erro de tratar a fauna como efeito colateral:
Em muitos projetos de restauração no Sudeste brasileiro, observa-se a implantação de dezenas de espécies arbóreas voltadas à recomposição estrutural da Mata Atlântica, enquanto espécies-chave para a alimentação de aves frugívoras e mamíferos de pequeno e médio porte são pouco representadas ou ausentes.
Além de sustentarem a fauna, espécies vegetais voltadas à alimentação da fauna frugívora — aves e mamíferos — desempenham papel central na dispersão de sementes e na regeneração natural das florestas. Quando essas interações não são consideradas explicitamente no planejamento da restauração, o sistema perde sua principal via de expansão da diversidade arbórea, comprometendo o avanço sucessional, a conectividade ecológica e a resiliência do ecossistema ao longo do tempo. O sistema até atinge metas iniciais de cobertura vegetal, mas não consolida ciclos ecológicos autossustentáveis.
Esse padrão não decorre de desconhecimento teórico, mas de escolhas metodológicas consolidadas. A seleção de espécies costuma priorizar critérios operacionais — disponibilidade em viveiros, rapidez de crescimento, facilidade de implantação.
Do ponto de vista do turismo de natureza, o limite é evidente: paisagens sem fauna funcional podem ser verdes e bonitas, mas não sustentam vida.
O erro de tratar a fauna como efeito colateral:
Em muitos projetos de restauração no Sudeste brasileiro, observa-se a implantação de dezenas de espécies arbóreas voltadas à recomposição estrutural da Mata Atlântica, enquanto espécies-chave para a alimentação de aves frugívoras e mamíferos de pequeno e médio porte são pouco representadas ou ausentes.
Além de sustentarem a fauna, espécies vegetais voltadas à alimentação da fauna frugívora — aves e mamíferos — desempenham papel central na dispersão de sementes e na regeneração natural das florestas. Quando essas interações não são consideradas explicitamente no planejamento da restauração, o sistema perde sua principal via de expansão da diversidade arbórea, comprometendo o avanço sucessional, a conectividade ecológica e a resiliência do ecossistema ao longo do tempo. O sistema até atinge metas iniciais de cobertura vegetal, mas não consolida ciclos ecológicos autossustentáveis.
Esse padrão não decorre de desconhecimento teórico, mas de escolhas metodológicas consolidadas. A seleção de espécies costuma priorizar critérios operacionais — disponibilidade em viveiros, rapidez de crescimento, facilidade de implantação.
Esses critérios são importantes, mas tornam-se insuficientes quando substituem perguntas centrais, como:
- Que fauna essa paisagem é capaz de sustentar?
- Quais recursos alimentares estarão disponíveis ao longo do ano?
- Quais interações ecológicas precisam estar ativas para que a regeneração se mantenha sem intervenção constante?
Quando essas perguntas não orientam o planejamento, a restauração pode cumprir exigências legais, mas dificilmente reconstrói um ecossistema funcional.
- RPPN, turismo regenerativo e resiliência ecológica:
Para proprietários que consideram criar uma RPPN ou investir em turismo regenerativo, a questão vai muito além do uso público ou da geração de renda associada à natureza. Quem busca, de fato, recuperar a resiliência de um ecossistema precisa considerar o retorno — ou a permanência — da fauna que historicamente habitava aquele território.
Restaurar não é apenas recompor a paisagem. É criar condições reais para que os animais voltem, permaneçam e desempenhem seus papéis ecológicos. Sem isso, os ciclos permanecem incompletos: a regeneração natural enfraquece, a diversidade funcional diminui e o sistema se torna mais vulnerável a perturbações.
Essa vulnerabilidade ganha ainda mais peso no contexto das mudanças climáticas. Ecossistemas que não sustentam fauna funcional são estruturalmente menos resilientes, respondem pior a eventos extremos, apresentam menor capacidade de adaptação a alterações no regime de chuvas e temperatura e dependem mais de intervenção humana para se manterem estáveis.
A fauna sustenta fluxos ecológicos essenciais: regula populações, distribui sementes, conecta fragmentos e mantém a diversidade funcional que permite à floresta persistir em um clima que já não é o mesmo. Sem essas interações, a restauração cria apenas uma ilusão de estabilidade.
Sem fauna, a floresta vira cenário. Com fauna, ela volta a ser ecossistema — capaz de funcionar, se adaptar e resistir.
O turismo regenerativo só faz sentido quando se apoia em ecossistemas vivos. E ecossistemas vivos são aqueles capazes de persistir, se adaptar e evoluir em um cenário de mudanças climáticas já em curso.
Fonte: Carmen Olivieri - Jornalista e publicitária, com pós-graduação em Gerenciamento Ambiental (ESALQ/USP) e MBA em Restauração Ecológica e Licenciamento Ambiental (UFSCar). Atua no planejamento e na análise crítica de projetos de restauração ecológica, RPPNs e regeneração de paisagens no Sudeste brasileiro.
Quando essas perguntas não orientam o planejamento, a restauração pode cumprir exigências legais, mas dificilmente reconstrói um ecossistema funcional.
- RPPN, turismo regenerativo e resiliência ecológica:
Para proprietários que consideram criar uma RPPN ou investir em turismo regenerativo, a questão vai muito além do uso público ou da geração de renda associada à natureza. Quem busca, de fato, recuperar a resiliência de um ecossistema precisa considerar o retorno — ou a permanência — da fauna que historicamente habitava aquele território.
Restaurar não é apenas recompor a paisagem. É criar condições reais para que os animais voltem, permaneçam e desempenhem seus papéis ecológicos. Sem isso, os ciclos permanecem incompletos: a regeneração natural enfraquece, a diversidade funcional diminui e o sistema se torna mais vulnerável a perturbações.
Essa vulnerabilidade ganha ainda mais peso no contexto das mudanças climáticas. Ecossistemas que não sustentam fauna funcional são estruturalmente menos resilientes, respondem pior a eventos extremos, apresentam menor capacidade de adaptação a alterações no regime de chuvas e temperatura e dependem mais de intervenção humana para se manterem estáveis.
A fauna sustenta fluxos ecológicos essenciais: regula populações, distribui sementes, conecta fragmentos e mantém a diversidade funcional que permite à floresta persistir em um clima que já não é o mesmo. Sem essas interações, a restauração cria apenas uma ilusão de estabilidade.
Sem fauna, a floresta vira cenário. Com fauna, ela volta a ser ecossistema — capaz de funcionar, se adaptar e resistir.
O turismo regenerativo só faz sentido quando se apoia em ecossistemas vivos. E ecossistemas vivos são aqueles capazes de persistir, se adaptar e evoluir em um cenário de mudanças climáticas já em curso.
