A Inteligência Artificial deixa de ser um conceito futurista




Quando falamos sobre tendências tecnológicas para 2026, o assunto é sempre o mesmo: Inteligência Artificial. Agentes autônomos, copilotos generativos, automação inteligente, tudo muito promissor e empolgante. Mas há um lado dessa história que poucos discutem e que deveria estar em todos os jornais: a IA sem governança é uma bomba-relógio.

Neste ano, a Inteligência Artificial deixa de ser um conceito futurista e se torna infraestrutura. Não falamos mais apenas de chatbots tradicionais, mas de agentes de IA capazes de executar tarefas complexas, interagir com múltiplos sistemas e monitorar processos em tempo real. É como ter um funcionário que nunca dorme, nunca erra e está em todos os lugares ao mesmo tempo.

Paralelamente, copilotos de IA estarão integrados a praticamente todos os softwares corporativos: seu editor de texto sugere frases, seu CRM gera relatórios automaticamente, seu software de gestão de projetos cria cronogramas sozinho. A Gartner estima que, até 2026, 80% dos aplicativos corporativos terão assistentes de IA integrados. Isso promete ganhos reais de produtividade, mas também traz um lado perigoso que precisa de atenção.

Imagine uma empresa de arquitetura: antes da IA, o time estudava o briefing do cliente, debatia ideias e apresentava duas ou três propostas bem fundamentadas. Hoje, com ferramentas de IA generativa, o mesmo time consegue gerar 20 opções em minutos. Parece incrível, certo? Mais opções, mais criatividade, mais eficiência, errado. Na prática, o cliente fica paralisado. O processo que antes era ágil se transforma em labirinto de possibilidades, e aquela “eficiência” prometida pela IA pode virar ineficiência brutal. O alerta é claro: IA sem regras, sem governança, sem limites, não melhora os processos. Ela os torna caóticos.

Além disso, a IA já está invisível em nossas ferramentas do dia a dia. O Zoom transcreve reuniões automaticamente, o Slack analisa conversas, o Salesforce gera relatórios, o Microsoft 365 realiza tarefas complexas sem que a equipe de TI ou de segurança sequer saiba. Um estudo recente revelou que 91% das ferramentas de IA dentro das empresas operam sem supervisão da TI, e 8,5% das interações envolvem dados sensíveis — informações pessoais, dados de clientes ou financeiros. Pergunte a si mesmo: você saberia dizer quais IAs estão processando os dados da sua empresa? Provavelmente não.

Quando a IA opera sem governança, os riscos vão além da ineficiência. Decisões não auditáveis, erros replicados em escala, vazamento de dados e ataques sofisticados passam a ser uma ameaça concreta. Um algoritmo que rejeita clientes bons, informações confidenciais sendo processadas por máquinas invisíveis ou deepfakes hiperpersonalizados podem gerar prejuízos gigantescos em minutos.

A resposta não é proibir a IA. O futuro é com ela, e as empresas que não a adotarem ficarão para trás. A solução é organizar o uso da tecnologia. Políticas de governança de IA são essenciais: definir onde a IA pode atuar, mapear todas as ferramentas em uso, criar trilhas de auditoria para decisões importantes, integrar segurança desde o início e treinar o time para compreender riscos e limites.

A regulamentação também está chegando: a Lei Europeia de IA já está em vigor e, no Brasil, o Projeto de Lei 2.338/2023 segue em tramitação na Câmara dos Deputados. Em 2026, a IA deixa de ser um diferencial competitivo e se torna uma necessidade. Mas também será o ano em que empresas sem limites claros para a tecnologia descobrirão que uma IA sem controle é mais prejudicial do que útil.

A questão não é mais “devemos usar IA?”. A pergunta é: como vamos usar IA de forma segura, responsável e eficiente? E isso precisamos responder agora.



Fonte: Rogerio Rutledge - DPO da Runtalent, empresa líder em Soluções Digitais.