Catador que virou presidente de uma das maiores cooperativas de reciclagem do país



Sair dos atuais 4% de reciclagem para 48% até 2040 e extinguir todos os lixões até 2024 são metas do Plano Nacional dos Resíduos Sólidos, regulamentado por Decreto Federal no ano passado. Essa medida reforça a importância da profissão de catador e para propagar a inclusão social dessa categoria, tão presente em nossas vidas e ao mesmo tempo passa quase sempre despercebida, a administradora de empresas Ana Maria Bernasconi escreveu o livro "O catador e o presidente: a vida de Telines Basilio do Nascimento Junior". 

A obra foi publicada pela Artêra, selo da Editora Appris, e conta a história de lutas do ex-catador de resíduos sólidos, que se graduou em gestão ambiental e hoje coordena 350 cooperados. O lançamento acontecerá no dia 16 de fevereiro de 2023, na Cooperativa de Coleta Seletiva da Capela do Socorro (Rua das Baiadeiras, 280 - Jurubatuba, São Paulo - SP).

Em um linguagem acessível, a publicação traz conceitos de meio ambiente e conscientização ecológica, enquanto apresenta os desafios e superações de Telines, de 58 anos. Mais conhecido como Carioca, ele saiu da Baixada Fluminense aos 20 anos para trabalhar na capital paulista. Mas logo ficou desempregado e sem coragem de pedir ajuda à família no Rio ou voltar para a casa. A partir da indicação de um vizinho, pegou uma carroça em um ferro-velho e começou a trabalhar como catador. 

Ao longo dos anos, ele deixou a carroça de lado e de forma autodidata não apenas se transformou em um dos maiores líderes da reciclagem do Brasil, como viu o setor dos resíduos crescer e se profissionalizar, ainda antes do conceito da economia circular ganhar corpo. Sua popularidade tem relação com a forma com que ele trata os "insumos" do seu trabalho: os resíduos e as pessoas.

A obra também aborda a trajetória das cooperativas de coleta seletiva e de reciclagem no Brasil sob o olhar do Carioca. “A vida era dura, ainda mais há 30 anos, quando os carroceiros eram vistos com mais preconceito. Depois de trabalhar 12 anos “puxando carroça”, fiz um curso de cooperativismo da Prefeitura de São Paulo e vi que o trabalho autônomo não traria oportunidades, o coletivo rende mais. Éramos 20 e poucos catadores e fundamos a Cooperativa de Produção e Trabalho de Coleta Seletiva da Capela do Socorro (Coopercaps), em 2003, uma das primeiras cooperativas de material reciclável de São Paulo - e uma das maiores do Brasil. 

O começo foi duro, no primeiro ano, garantíamos apenas as refeições. Se sobrasse dinheiro, era R$ 50 a cada três meses. Mas foi a partir desse passo que minha vida foi transformada. Através daquilo que as pessoas chamam de lixo, eu pude mudar a minha história”, conta o ex-catador, que foi usuário de cocaína, conseguiu abandonar o vício e faz questão de abrigar dependentes químicos na cooperativa.

O livro também narra que a visão empreendedora começou a mudar o quadro da cooperativa com a visita de um grupo da Japan International Cooperation Agency (Jica), em 2008, que propôs atividades de educação ambiental junto às escolas da região. O trabalho com as crianças virou exemplo e auxiliou na atração de empresas variadas. Entre elas, uma escola começou a fornecer bolsas de estudos aos catadores. Carioca também voltou a estudar, conquistou o bacharelado em Gestão Ambiental e fez com que outros cooperados obtivessem o curso superior. Os custos com as mensalidades são pagos, em parte, pela cooperativa. 

“Na cooperativa, eu descobri que era um líder e tinha o dom da palavra, mas me angustiava, nas assembleias, ver que as outras pessoas não tinham a mesma condição para me questionar”, explica, evidenciando o motivo de sempre falar para os cooperados voltarem aos bancos escolares.

O caderno de memórias e vivências conta ainda que os novos horizontes que se abriram para Telines o incentivaram a buscar mais conhecimento e se especializar em sustentabilidade, assim ele fez a pós-graduação em Gestão de Projetos. Atualmente, além de coletar, separar, prensar e vender os materiais, a cooperativa também vende outros serviços e produtos, como palestras e gestão ambiental em edifícios. Ele já visitou países como Japão, Argentina e Peru, e viaja pelo Brasil para interagir com outros atores da reciclagem no país, transmitindo sua experiência, absorvendo novos conhecimentos e descobrindo tecnologias.


Fonte: Maria Cristina da Silva Mello

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