segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Segunda semana do 21º Congresso IBGC enfatizou necessidade de ações efetivas em ESG



Um mundo mais sustentável construído com a ajuda de empresas atentas às suas crescentes responsabilidades na proteção ao meio ambiente, na adoção de práticas de impacto social positivo e na observação de preceitos e regras de governança. 

Essa foi a linha mestra das discussões que ocorreram na segunda semana do 21º Congresso IBGC, encerrada na última sexta-feira (13/11), cuja programação foi voltada a um dos principais temas na mesa das organizações neste momento: a agenda de práticas ESG (sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança).

Durante o painel de abertura, o professor convidado da Saïd Business School, Universidade de Oxford, Robert Eccles, chamou a atenção para a necessidade de as corporações terem um propósito social bem estabelecido, claro e declarado a todos os stakeholders (comunidade, colaboradores, clientes, fornecedores), não apenas os acionistas.

"Os investidores estão trabalhando para integrar a sustentabilidade em suas análises, mas há alguns desafios e os dados ainda são um problema, pois não temos um padrão para a sustentabilidade, assim como temos para os relatórios financeiros. Os investidores perceberam que a agenda sustentável poderia trazer retornos melhores e resultaria em redução nos riscos", explicou o acadêmico, sinalizando que a agenda de ESG também precisa de maior envolvimento dos CFOs (responsáveis pela área financeira), que, consequentemente, deveriam levar o tema ao conselho. "Sustentabilidade deve ser uma preocupação de todos", declarou.

O especialista participou do painel "Propósito das organizações e relacionamento com stakeholders", junto a Fábio Alperowitch, sócio-fundador da Fama Investimentos; e a Regina Magalhães, diretora do segmento de Mobilidade da Schneider Electric América do Sul; e moderado por Tarcila Ursini, conselheira de administração.

- Impacto social:

Na sequência, Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), iniciou o debate sobre "ESG no contexto europeu e brasileiro" já destacando que as agendas ambientas, sociais e de governança não são preocupações novas.

"No começo da crise de Covid-19, pensávamos se o ESG iria, de fato, emplacar e vimos que essa crise acelerou tendências e mostrou que essas práticas vieram para ficar. No Brasil, o ‘S’ de social ficou mais exposto com a chegada da pandemia, colocando o foco em pessoas invisíveis que estavam no país e que, inclusive, estimulou o redirecionamento de uma política econômica liberal, olhando para essa camada da sociedade. Então, eu acho que o ‘S’ vai permanecer, principalmente porque também significa a preocupação com mudança climática e saúde", salientou.

De acordo com Karina Litvak, conselheira e diretora executiva do Chapter Zero, é papel do conselho de administração estar pronto a ouvir as opiniões externas.

"Atualmente, as pessoas são escolhidas para atuar em um conselho baseado na sua experiencia prévia nessa função, e isso conspira contra o acesso de muitos talentos. As pessoas que vão para os conselhos, geralmente, são CEOs aposentados. Isso tem que mudar porque precisamos de perspectivas novas no conselho. A gente fala muito de diversidade racial, de gênero, mas precisamos de diversidade cognitiva, pessoas que tiveram outras experiencias e influenciem as tomadas de decisões".

Em concordância com a necessidade de conselhos mais diversos, Grossi destacou que "chamamos pessoas que são semelhantes a nós, e não sabemos tudo. Além disso, o número de mulheres também precisa aumentar nos conselhos. Temos um número ridículo de mulheres nos conselhos e um setor que, talvez, vai dar um empurrãozinho será a comunidade de investidores, pois sinalizam que não vão investir em empresas que não tenham, pelo menos, uma conselheira".

Para Marcelo Behar, vice-presidente de Sustentabilidade da Natura & Co, a governança corporativa traz a clareza sobre quais os papéis de cada um, além do conhecimento e prática que permitem entendimento das responsabilidades nos diferentes processos. Nesse sentido, destacou que a crise ensinou diferentes formas de trabalho, organização e de relacionamento que vieram para ficar e vão mudar as práticas no futuro.

O tema "diversidade" também ganhou destaque durante o painel "Novas gerações lideram ESG nas empresas familiares" com a presença de Fernando Antonio Simões Filho, sócio-diretor na Bemtevi Investimento Social; Marina Feffer, cofundadora do Generation Pledge; Rafael Goelzer, sócio diretor de Relacionamento com Mercado na Quinta da Estância; e Paula Lucas Setubal, conselheira de administração e dos comitês de auditoria e pessoas da Duratex S.A.

Ao longo da conversa, os especialistas comentaram sobre o ESG ser o termo que está na moda, apesar de ser uma preocupação antiga. Ressaltaram que muitas das mudanças que estão acontecendo hoje, já estavam em andamento porque se trata de uma mudança de geração e a pandemia apenas acelerou esse processo.

"Devemos nos tornar melhores empresas para o mundo, e não as melhores empresas do mundo. As transformações que estamos vendo são resultados de uma geração que questiona e agrega muito, tanto nos conselhos, como nos negócios. Essa mudança geracional ainda é pouco discutida", de acordo com o sócio da Bemtevi Investimento Social, Fernando Antonio Simões Filho.

- ESG e os investimentos:

Corroborando a ideia de que os investidores devem ter envolvimento maior na agenda ambiental, social e de governança, o painel "ESG sob a ótica dos investidores do mercado de capitais", contou com a participações de Fábio Coelho, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec); Marta Pinheiro, diretora de ESG da XP Inc; Marcio Correia, gestor de Fundos de Investimento em Ações da JGP; e Rogério Santana, diretor de Relacionamento com Empresas e Assets da B3.

Durante o debate, os especialistas sinalizaram que os próprios investidores cobram posicionamentos sobre os países em relação a essas agendas e que o tema é fundamental para a pauta do ambiente de negócios brasileiro.

Entre os principais pontos sinalizaram que, inclusive, já utilizam indicadores de mercado para construírem métricas que ajudem na escolha dos investimentos. Nesse sentido, a própria XP Inc informou que está construindo um portfólio de produtos ligados ao ESG e investiram também em educação para auxiliar esse processo com conteúdo sobre o tema e perspectivas.

Segundo Marcio Correia, gestor de fundos de ações e sócio da JGP, não existem indicadores de ESG e um legado social sem a governança corporativa. O executivo destaca que responder perguntas sistêmicas relacionadas aos objetivos, modelo de negócios e cenários são fundamentais para os investidores



Fonte: William Maia

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