segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Aceleração e consolidação da agenda da sustentabilidade


As exigências inerentes aos princípios de ASG (Ambiental, Social e Governança) vêm ganhando peso até mesmo como fator de decisão para investimentos. Globalmente, segundo dados da XP, mais de 30 trilhões de dólares em ativos sob gestão são gerenciados por fundos que definiram estratégias sustentáveis. Somente na Europa, são 14,1 trilhões, equivalentes a mais de 50% do total do continente. Nos Estados Unidos, 25%.

Tal movimento, que tem crescido de maneira mais consistente nesta pandemia da Covid-19, vem sendo paulatinamente observado há pelo menos quatro décadas. Um dos marcos dessa pauta foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-92), realizada no Rio de Janeiro há quase 30 anos. Seguiram-se as periódicas conferências do clima, o acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

No entanto, por numerosas razões, como divergências quanto ao comprometimento e investimentos de cada país, a civilização ainda não conseguiu conter as mudanças climáticas, a emissão de carbono e de gases de efeito-estufa, devastação de biomas e ecossistemas e as desigualdades socioeconômicas.

Entretanto, o novo coronavírus catalisou as atenções sobre o tema e as reflexões de que esteja se esgotando o modelo de consumo e de exploração dos recursos naturais em bases não sustentáveis.

Portanto, os avanços precisam ser mais rápidos e substantivos. O Brasil, por sua biodiversidade, reservas vegetais e hídricas, população, dimensões territoriais, capacidade de produzir alimentos e combustíveis de fontes limpas e renováveis, tem potencial para ser uma das potências bioeconômicas, tornando-se referência planetária quanto à sustentabilidade e economia circular. 

Temos um arcabouço legal e estrutura fiscalizatória raramente encontrados em outras nações. Além disso, estamos entre os países que mais ratificaram as convenções da Organização Mundial do Trabalho (OIT).

A agenda ASG é inadiável e não está atrelada apenas à execução de corretas políticas públicas, mas também à responsabilidade dos setores produtivos e da sociedade. A médio e a longo prazo, quem não estiver inserido nessas tendências ficará fora do mercado. 
É importante que todos adotem boas práticas e as disseminem. 

Deve-se comunicar com transparência à sociedade a qualidade dos produtos, origem das matérias-primas e correção das relações trabalhistas, para que as pessoas tenham consciência das transformações. Os próprios cidadãos, principalmente nas faixas etárias mais jovens, têm exigido isso. 

A última pesquisa do Instituto de Estudos de Marketing Industrial (IEMI) mostra a mudança de comportamento do consumidor e a valorização das mercadorias, bens e serviços resultantes de boas práticas.

A cadeia produtiva da moda, parte relevante da indústria têxtil e de confecção, está empenhada em solucionar problemas ainda existentes no Brasil e no mundo e engajada no movimento em prol da preservação ambiental, ética, compliance e trabalho digno.

Nesse sentido, acaba de ser lançado o Núcleo de Sustentabilidade e Economia Circular (Nusec), iniciativa da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e do Senai Cetiqt. O novo organismo trabalhará de modo intenso e sistêmico no âmbito dos princípios ASG.

A indústria têxtil e de confecção tem muitos elementos positivos, gera cerca de 100 milhões de empregos diretos em todo o mundo e movimenta mais de dois trilhões de dólares por ano. O Brasil é protagonista no setor, sendo o quinto maior produtor do planeta e detentor da maior cadeia integrada do Ocidente, da produção de fibras naturais e sintéticas, passando por tecelagens, fiações, insumos e design, até a fabricação de roupas e itens de cama, mesa e banho, geotêxteis, têxteis técnicos, produtos de saúde e proteção. Além disso, dispõe de robusta rede de ensino e qualificação.

É preciso comunicar os avanços e continuar no caminho da solução de problemas, que não são monopólio do setor. A cadeia produtiva da moda, como ocorre na maioria das áreas de atividade, vem caminhando nessa direção há tempos, quanto a seus valores, à origem de seus produtos e reparo das distorções às vezes presentes em vários países, inclusive o Brasil. 

Deve-se avançar de maneira consistente nessa agenda. Ao mesmo tempo, é importante que a sociedade perceba esse movimento dos setores produtivos, o valorize, cobre e seja também agente de transformações positivas.

É um significativo processo de aculturação coletiva e exercício da transparência, fator hoje crucial no universo dos negócios, nas relações sociais e na interação entre consumidores e empresas.

Temos de caminhar, em todos os ramos, para uma civilização cada vez mais verdadeira, com princípios e valores que levem a uma sociedade melhor. O fato de ainda termos um Brasil com muitas desigualdades não pode nos impedir de avançar nesses compromissos.

Ao contrário, devemos buscar cumpri-los simultaneamente aos objetivos de promover crescimento econômico inclusivo e melhor distribuição de renda. Afinal, não pode haver dissintonia entre desenvolvimento e sustentabilidade, que se tornam interdependentes.

A pauta ASG é agora tão decisiva quanto as reformas administrativa e tributária e o equilíbrio fiscal, que tanto demandamos e propomos. Trata-se de um compromisso do Estado e da sociedade, preponderante numa democracia como a brasileira. 

Esses valores convergem para a transparência, práticas sustentáveis e compliance! É fundamental que todos atendam a esse chamamento da civilização em favor de um mundo melhor!


Fonte: Fernando Valente Pimentel - presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

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