sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Os dez mitos do agronegócio


Existem inúmeros mitos sobre o agro brasileiro. Mentiras, falácias e crendices se misturam com a política, a ideologia e o marketing. Nas redes da internet, pululam fake news. Um mar de desinformação.

1. O mito mais antigo:

Pero Vaz de Caminha jamais escreveu “aqui, em se plantando, tudo dá”. O escrivão do Rei destacou, em verdade, a riqueza dos recursos hídricos brasileiros: “dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. A versão popularizada criou o mito da terra fértil. Na verdade, os solos tropicais, regra geral, têm maior acidez, são menos estruturados e mais arenosos que os europeus ou norte-americanos. 

2. O mito mais politizado: 

Não é verdade que 70% da produção de alimentos do país venha da agricultura familiar. Esse número mágico surgiu de um evento político, em 2011, no Palácio do Planalto. A esquerda agrária o transformou em mantra. Rodolfo Hoffmann, pesquisador da Unicamp/Esalq, chegou à conclusão que seria, no máximo, de 25%. 

O Censo Agropecuário do IBGE (2017) bateu o martelo: a agricultura familiar responde por 23% do valor total da produção agropecuária do país. Fora disso, é ideologia. 

3. O mito mais absurdo: 

Gasta-se 15.000 litros de água para produzir 1 quilo de carne bovina. Trata-se de um raciocínio absurdo. Os animais, incluindo humanos, bebem água, sim, mas a excretam na urina. Falar em “consumo” nessa situação esconde que o precioso líquido é diariamente devolvido ao ciclo hídrico da natureza. Pobre boi. Quem estraga a água é o chuveiro residencial e a descarga da privada. 

4. O mito mais mentiroso: 

Alimentos transgênicos fazem mal à saúde. Mentira deslavada. Jamais, em qualquer lugar do mundo, relatou-se problema de saúde humana causado por ingestão de comida geneticamente modificada. Utilizada na medicina, a engenharia genética gerou a maravilha da insulina transgênica, produzida por uma bactéria (E.coli) cujo genoma recebeu um “pedacinho” de gene humano. Hoje, 100% da insulina ministrada aos diabéticos é de origem transgênica. Zero problema. 

5. O mito mais surpreendente: 

Alimentos orgânicos sujeitam-se, sim, aos agrotóxicos químicos. Proíbem-se ingredientes sintéticos, mas pesticidas à base de cobre, potássio ou enxofre são normalmente usados no controle de pragas das lavouras orgânicas. Elaboradas com metais pesados, embora naturais, as caldas bordalesa e sulfocálcica apresentam toxicidade à saúde humana e ao meio ambiente, exigindo cuidados na aplicação de campo e manejo de colheita. Fique esperto.

6. O mito mais confuso:

A agropecuária é responsável pelo desmatamento da Amazônia. Textos sobre o assunto costumam não distinguir a floresta amazônica, um bioma, da Amazônia Legal, um território político que engloba extensas e produtivas áreas de cerrado, no Mato Grosso especialmente. 

De 2010 a 2016, os assentamentos de reforma agrária foram os principais responsáveis pelo desmatamento na Amazônia, com 28,9% do total. Em seguida, aparecem as propriedades rurais (24,3%), seguidas das “terras públicas não destinadas” (24%) e, depois, vem o crime dentro de Parques e Reservas (11,8%). 

7. O mito mais ilógico:

Gado polui mais que automóvel. Não faz nenhum sentido. Jornalistas confundem emissões de metano, advindas da ruminação bovina, com os gases tóxicos derivados da queima de combustíveis fósseis. O primeiro está associado ao efeito estufa da Terra. 

Já os gases liberados pelos escapamentos de motores (óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e monóxido de carbono, além da fumaça preta de caminhões) causam doenças e envenenam os pulmões. Carne bovina e leite de vaca, por outro lado, matam a fome de milhões. 

8. O mito mais pernicioso: 

Leite não faz mal à saúde, salvo àquelas pessoas que apresentam intolerância à lactose (um açúcar natural) ou aos alérgicos à proteína do leite de vaca (APLV), problema que afeta 2,2% das crianças no Brasil. Fora disso, leite de vaca, queijos, manteigas e iogurtes são alimentos deliciosos e nutritivos, presentes na dieta civilizatória desde tempos remotos. Denegrir o leite tolhe seu consumo na população. 

9. O mito mais duvidoso:

Banana combate câimbras. Pode ser, mas depende. Câimbras podem advir da desidratação, do ácido lático ou da falta de minerais, como potássio, magnésio, cálcio ou sódio. Banana contém alto teor de potássio, cerca de 300 mg/100 gramas. É fato. Mas a pipoca contém 1.500 mg; o feijão, 1.300 mg; as nozes, 600 mg. 

Ou seja, embora verdadeira a fama da banana, outros alimentos também poderiam facilmente abastecer o organismo com potássio. Se vai, ou não, evitar as câimbras, é outra questão, que depende da medicina. 

10. O mito mais impressionante:

Todos estamos sendo envenenados por agrotóxicos. É impressionante como a opinião pública acredita ser verdade uma falsidade criada para atacar a agricultura tecnológica. A mais completa pesquisa feita pela Anvisa, do Ministério da Saúde, indicou um total de 250 amostras (5,4% de 4.616 análises) com resíduos de pesticidas acima do LMR (Limite Máximo de Resíduo). 

A margem de segurança, porém, é de 100 vezes. Por essa razão, apenas 0,89% do total das amostras representavam, segundo a Anvisa, potencial de risco agudo à saúde. Quanto ao risco crônico, o resultado deu zero. 

Ou seja, os resíduos químicos são metabolizados, eliminados, pelo organismo humano. Mitos não apenas confundem a opinião pública. Eles podem influenciar políticas públicas. Representam, portanto, não somente um perigo ao pensamento inteligente, mas um risco às melhores decisões sobre o futuro da sociedade.


Fonte: Xico Graziano - agrônomo e ex- Secretário de  Meio Ambiente-SP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário