terça-feira, 30 de junho de 2020

Devastação ambiental é indicativo do recente ataque de gafanhotos


Com um clima cada vez mais quente, as correntes oceânicas e os ventos são alterados promovendo mudanças significativas nos ciclos ecológicos. O clima do mundo está mudando, favorecendo efeitos cada vez mais significativos de fenômenos comuns. 

Para Allan Pscheidt, coordenador do curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário FMU, a devastação é um dos principais motivos para o que está acontecendo. "O desmatamento e a baixa diversidade das plantações e pastagens favorecem o comportamento de espécies destrutivas, como podemos ver no caso dos gafanhotos, que ao migrarem para um novo local, em busca de nutrientes e parceiros sexuais, devoram grandes áreas de plantações e pastagens".

O especialista explica que esse desequilíbrio ambiental causa redução na população de predadores e aumento na população de gafanhotos. "Com a escassez de alimentos em um ambiente, migram para outro, deixando um rastro de destruição e prejuízos para a economia. Ao se reproduzirem, cerca de 100 ovos são colocados e em 10 dias originam ninfas com mandíbulas fortes".

- Características da espécie:

Existem cerca de 30 mil tipos de gafanhotos em todo o mundo, com exceção das regiões polares. São providos de pernas traseiras bem desenvolvidas, adaptadas para deslocarem-se aos saltos, e morfologia que permite a estridulação com produção de som característico pelo atrito entre fileiras de pequenos dentes presentes em diferentes partes do corpo do animal, como as asas e as pernas, e que varia no ritmo e no modo de emissão dependendo da casta.

Segundo o professor, na maioria das vezes, os machos produzem o som para atrair a fêmea, marcar seu território ou avisar sobre a presença de predadores. Comem, preferencialmente, gramíneas, folhas e cereais, e a grande maioria das espécies são polífagas, ingerindo uma ampla variedade de diferentes espécies de plantas.

O aumento da nuvem de gafanhotos se relaciona com diferentes fatores, como a temperatura, pluviosidade e dinâmica dos ventos. A mudança climática, com o aumento das temperaturas e mudança no ciclo das chuvas, é determinante no favorecimento de grandes populações desses insetos.

"As nuvens de gafanhotos podem ter dimensões de poucos quilômetros quadrados e mais de 40 milhões de insetos. Essa potência é capaz de comer áreas de pastagens, prejudicando a pecuária e plantações de milho, mandioca e soja, por exemplo. Vale destacar que apesar da devastação nas plantações, eles não causam problemas para a saúde, pois não são vetores de nenhum tipo de doença e, ao passar por vilas ou cidades, não representam riscos", comenta Pschedt.

O fenômeno é comum e recentemente passou a assolar parte de Ásia, do Oriente Médio e Sudeste Asiático, causando falta de alimentos e aumento dos preços, em razão também da pandemia do coronavírus SARS-CoV-2. Com um ciclo reprodutivo rápido, em poucos dias, nuvens secundárias surgem somando aos danos causados para a natureza pela espécie Schistocerca gregaria (gafanhoto-do-deserto).


Já na América do Sul, uma nuvem identificada no Paraguai percorreu longas distâncias com efeitos na Argentina e colocando em alerta autoridades no Brasil e Uruguai. Diferentemente da outra parte do mundo, aqui a nuvem é da espécie Schistocerca cancellata (gafanhoto-migratório).

Em ambos os casos, segundo o especialista, é comum o hábito de reprodução desses insetos após a época das chuvas. Com o aumento da pluviosidade, a vegetação cresce, principalmente as gramíneas, e com isso há uma explosão na densidade populacional dos gafanhotos, que normalmente vivem isolados.

Com esse aumento populacional, passam a um hábito gregário promovido pelo acúmulo de até 3 vezes mais no nível de serotonina no sistema nervoso que altera o modo como os animais respondem a estímulos vindos de outros animais, regulando a agressividade.

Esse comportamento possibilita a sobrevivência da espécie, que em bando é capaz de afugentar predadores e se deslocar para novos locais. O hábito gregário faz com que esses insetos comam o equivalente ao seu peso em um dia e possibilita migrar cerca de 100 km em até oito horas.

No caso do Paraguai, a praga atacou lavouras de milho e, rapidamente, avançou para o território argentino. No Brasil, cujas fronteiras estão em alerta, acontecem ataques por nuvens de gafanhotos desde o século XIX, quando ocorreu o aumento expressivo do cultivo do café, arroz e outros vegetais para exportação.

Nas décadas de 1930 e 1940, a região sul do Brasil foi atacada por nuvens de gafanhotos causando danos às lavouras de arroz e, desde então, a espécie Schistocerca cancellata mantinha comportamento isolado. Com alterações gradativas no clima, como é observado nas últimas décadas, o surgimento da nuvem em diversos países alerta as autoridades sobre o comportamento gregário desses insetos.

- Controle:

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) monitora as nuvens de gafanhotos desde 1997. O controle populacional utilizando inseticidas é eficaz, porém, pode causar danos ao meio ambiente. "O uso de inseticidas generalistas afeta também outros insetos e causa ainda mais desequilíbrio ecológico. Com o conhecimento do efeito da serotonina nos gafanhotos, substâncias antisserotonina teriam de ser aplicadas evitando o hábito gregário. Grandes áreas de monocultura (um único tipo de espécie na plantação) promove a queda da biodiversidade, eliminando espécies importantes e destruindo a cadeia alimentar", afirma Pscheid.

O docente analisa que, anualmente, a falta de tecnologias para produção de alimentos e políticas eficazes de preservação ambiental causam prejuízos econômicos e compromete, principalmente, populações menos favorecidas.

"O hábito alimentar da população humana novamente é colocado à prova oferecendo sinais de mudanças necessárias para suprir uma população mundial que já passa dos 7 bilhões e 790 milhões de pessoas", finaliza.



Fonte: Allan Carlos Pscheidt - graduado em Bacharelado em Ciências Biológicas, graduação em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas, mestrado em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo Instituto de Botânica. É Coordenador de Curso de graduação em Ciências Biológicas - Bacharelado e Licenciatura e Tecnologia em Radiologia do Centro Universitário FMU.


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