terça-feira, 26 de novembro de 2019

Câncer de pulmão: o mais mortal


São mais de 1,8 milhão de casos novos de câncer de pulmão diagnosticados por ano no mundo, sendo sua taxa de mortalidade de 82%. Além disso, sua incidência vem aumentando na taxa de 2% ao ano. No mundo todo o câncer de pulmão mata mais do que o câncer de mama, próstata e intestino juntos, o que é um dado realmente alarmante. No Brasil não é diferente! O câncer de pulmão é o que mais mata os homens e o segundo que mais mata as mulheres.

Em 2018, pelos dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), foram mais de 30 mil casos diagnosticado no país.O que mais choca é o fato de ser um câncer, na grande maioria das vezes, evitável, pois o seu aparecimento está intimamente relacionado ao hábito de fumar (90% dos tumores estão relacionados ao cigarro). O cigarro tem mais de 2.500 compostos químicos, dos quais ao menos 50 são sabidamente cancerígenos. Embora no Brasil o número de pessoas tabagistas venha caindo nos últimos anos graças a várias campanhas e leis antitabaco, o cigarro ainda está presente no dia a dia de muitas pessoas.

O câncer de pulmão é mais comum em pessoas de idade mais avançada: 90% dos casos são descobertos após os 60 anos e vários anos de exposição às substancias nocivas do cigarro. Quando o tumor é muito inicial, geralmente não causa sintomas que chamem a atenção e, quando os sintomas aparecem, a doença geralmente está avançada, por vezes tendo se espalhado pelo corpo, as chamadas metástases. Assim, os principais sintomas podem ser relacionados como cansaço, escarro com sangue, inchaço no pescoço e rosto, falta de ar, emagrecimento, tosse, perda de apetite, expectoração e dor no peito.

Existem vários subtipos de câncer de pulmão e para cada um deles há um tratamento mais adequado. É importante deixar claro que mesmo indivíduos que nunca fumaram também podem ter câncer de pulmão, embora seja mais raro. Geralmente, a suspeita é confirmada por meio de exames de imagem como raio x de tórax ou tomografia de tórax. Os exames de imagem mais novos e as novas tecnologias permitiram avançar muito nessa área com a capacidade de visualização de nódulos cada vez menores.

De todo modo, apesar da alta letalidade deste tipo de tumor, quando descoberto no início, as chances de cura são altas e, mesmo quando descoberto em fases mais avançadas, o controle da doença com os novos tratamentos vem permitindo as pessoas viverem mais e com melhor qualidade de vida. O tratamento curativo continua sendo essencialmente a cirurgia, mas novas armas terapêuticas revolucionaram o tratamento nos últimos cinco anos.

O câncer de pulmão é o protótipo da chamada medicina personalizada, ou seja, cada indivíduo recebe um tratamento especifico para o seu caso, dependendo do tipo de tumor e das alterações genéticas que cada indivíduo pode ter. Existem vários genes envolvidos no desenvolvimento da doença. Esses genes são como interruptores de luz, que deveriam estar desligados. Quando eles sofrem alguma mutação e se “ligam”, levam as células a se multiplicarem de forma rápida e irregular, ocasionando o tumor. 


Atualmente, existem vários medicamentos que são direcionados para “desligar” esses genes aberrantes. Para cada diferente gene existe uma droga especifica e o gene que está “ligado” em uma pessoa pode ser diferente do que está “ligado” em outra pessoa com o mesmo tipo de câncer. Esses tratamentos geralmente são orais (comprimidos), são mais eficazes e menos tóxicos do que a quimioterapia convencional, que ainda tem papel no tratamento em algumas situações.

Outro grupo de medicamentos que mudou a história natural deste tipo de tumor é a imunoterapia. Tratam-se de medicamentos que agem aumentando a força do nosso próprio sistema imunológico contra o tumor. É como se recrutássemos os linfócitos (soldados de defesa do nosso corpo) para enxergar e combater de maneira mais eficaz o câncer. 

Estes medicamentos funcionam particularmente bem para aquele grupo de indivíduos cujo tumor não tenha nenhuma mutação naqueles genes comentados anteriormente. Com esses tratamentos os ganhos em tempo de vida e qualidade de vida são impressionantes. Infelizmente são medicamentos caros e que ainda não estão disponíveis no sistema público de saúde no qual se imagina que estejam até 70% do total de pacientes com esse diagnóstico.

Mesmo com todas as novidades, a prevenção com a diminuição do número de tabagistas ainda é a maneira mais eficaz de se combater essa doença. O mês de novembro, já mundialmente conhecido como Novembro Azul é também o Novembro Branco, mês de conscientização e combate ao câncer de pulmão, câncer que – sozinho – mata mais do que câncer de mama, próstata e intestino juntos, em todo o mundo.


Fonte: Vinícius Corrêa da Conceição - oncologista graduado pela Unicamp, visiting fellow no serviço de oncologia do Instituto Português de Oncologia (IPO). Membro titular da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO).

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