sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Criar cidades mais saudáveis, seguras e felizes


Como a construção da resiliência em projetos integrados de infraestrutura pode transformar cidades na Ásia-Pacífico lugares mais atraentes para se viver e investir?

As cidades na Ásia-Pacífico têm sido as receptoras de alguns dos maiores choques e tensões dos últimos anos. O processo de urbanização fez com que pessoas se mudassem para as cidades num ritmo mais rápido do que a capacidade de adaptação da infraestrutura. Com a globalização, os desafios de uma cidade cada vez mais se refletem nas outras. E as cidades assentadas em deltas de rios, no litoral e em planícies se tornaram vulneráveis aos piores efeitos da mudança climática. 

Chennai, no sul do estado indiano de Tamil Nadu, é uma cidade que materializa essas questões. Construída em sua maior parte em uma planície inundável, ela foi atingida por severas enchentes em 2005 e 2015. A imigração recente fez dela uma das quatro maiores regiões metropolitanas do mundo. E muitos dos recém-chegados vivem em áreas de alto risco nas periferias da cidade. Enquanto isso, em Bangkok, metade dos 10 milhões de habitantes da cidade vem de outras províncias e outros países em busca de trabalho. Muitos são pobres e vulneráveis.

Ainda assim, apesar de terem visto os danos que desastres naturais podem causar, e a pressão que o rápido crescimento de populações coloca sobre os sistemas e serviços, poucas cidades na Ásia-Pacífico estão desenvolvendo a resiliência como parte de seus projetos de infraestrutura. Em vez disso, elas focam em projetos bem básicos que prometem trazer um grande retorno econômico. 

Acreditamos que está na hora de uma nova abordagem. As cidades na região deveriam mirar-se no exemplo de suas semelhantes ao longo da Nova Rota da Seda, assim como em Bangkok e Semarang, para ver como integrar resiliência em projetos que resolvem múltiplos desafios e trazem benefícios sociais e econômicos no longo prazo.

- Quatro grandes questões sobre cidades resilientes na região da Ásia-Pacífico

1. Qual é o problema?

As cidades na região da Ásia-Pacífico estão se apressando em atingir os padrões mínimos em seus projetos de infraestrutura. Ao fazer isso, desconsideram a resiliência, o que as deixa indefesas a choques e tensões no futuro. E seus cidadãos mais novos e mais pobres pagam um preço desproporcionalmente alto.

2. Quais são os custos?

A enchente de 2011 em Bangkok e a fraca gestão de inundações em Quy Nhon, Vietnã, são exemplos de como o fato de não planejar integralmente o que fazer em uma situação de desastre pode custar extremamente caro.A enchente de Bangkok causou um prejuízo estimado em US$ 45 bilhões à cadeia global de suprimentos, dos quais apenas US$ 10 bilhões estavam sob seguro. E quando o tufão Mirinae atingiu Quy Nhon, em 2009, as inundações subsequentes causaram cerca de US$ 21 milhões de prejuízo.

3. Por que o problema existe?

A iniciativa 100 Cidades Resilientes identificou as três maiores razões para essa falta de planejamento adequado: urbanização, globalização e mudança climática.O processo de urbanização é particularmente problemático na Ásia-Pacífico. 

Enquanto as pessoas estão deixando as cidades no Ocidente, mais de 400 mil mudam-se para as cidades no Leste Asiático por semana. Das 10 cidades que crescem mais rapidamente no mundo, seis encontram-se na Ásia.

A região viu muitas políticas e gastos realizados pelo governo em resposta ao alardeado déficit de gastos de US$ 1 trilhão por ano. Isso significa que as cidades estão hesitantes em questionar as políticas, ou em falar com clareza se elas não estão mirando no futuro.

As cidades também tendem a estar isoladas em sua maneira de fazer negócios. O Departamento de Obras Públicas pode não estar trabalhando com as pessoas ligadas a investimento econômico ou investimento estrangeiro direto, logo, as pessoas que promovem diferentes zonas de desenvolvimento econômico podem não estar considerando as enchentes ou a drenagem em seus planos.

Por fim, as cidades menores da região não têm o mesmo acesso ao capital privado que as maiores. Algumas não têm qualquer acesso aos mercados de capital e têm que recorrer aos seus governos nacionais.

Os que têm acesso se acostumaram a priorizar projetos de infraestrutura básica, porque pensam que isso vai lhes dar mais chance de garantir financiamento.

4. Como você pode motivar cidades e atores do ambiente da construção a investir em fazer as coisas de outra maneira?

Construir cidades resilientes é algo que demanda uma nova abordagem. Os projetos de infraestrutura precisam ser integrados, de modo que eles enfrentem os desafios urbanos de maneiras que beneficiem tanto os cidadãos quanto os investidores.

A cidade holandesa de Rotterdam é um bom exemplo. Ela investiu € 100 milhões em medidas inovadoras de mitigação de eventos climáticos, como parquinhos de crianças que se transformam em sistemas de drenagem de água quando há chuvas fortes.

Cidades que escolhem essa abordagem tornam-se lugares onde as pessoas querem viver, trazendo investimentos e aumentando o valor dos imóveis. Na cidade de Nova York, o desenvolvimento desencadeado pelo projeto High Line deverá trazer US$ 4 bilhões em investimento privado e US$ 900 milhões em receitas para a cidade pelos próximos 30 anos. A construção de um viaduto nunca traria esses benefícios mais amplos.

As cidades situadas ao longo da Nova Rota da Seda já começaram a reconhecer essa correlação. Yiwu, na província chinesa de Zhejiang, está considerando como desenvolver uma vida cultural que dê suporte aos trabalhadores que fazem a cidade crescer 13% ao ano.

Como a maioria desses recém-chegados é de estrangeiros, os responsáveis pelo planejamento de Yiwu também estão usando uma abordagem inclusiva. Além de pensar na infraestrutura, eles estão pensando nas instituições e sistemas que irão apoiar a infraestrutura. Por exemplo, criaram tribunais mistos, assim, em uma disputa comercial, as pessoas apresentam seus casos a um júri que é 50% chinês e 50% estrangeiro.


Fonte: Fundação Rockefeller - por mais de 100 anos, a missão da Fundação Rockefeller tem sido promover o bem-estar da humanidade ao redor do mundo. 

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